seria mais ou menos assim:
em um dia, saindo da escola, atravessando debaixo do sol quente as ruas para almoçar na tua casa. no meu mp3 vermelho, alguma música que eu gostaria de te mostrar. tinha que ser depois da aula, porque éramos de turmas diferentes (, mas aqui é o reino da imaginação, então não vamos nos afastar tanto, tudo bem?). no meu caderno, inúmeras declarações de amor. sempre fui besta, boba e tola. repito tanto o que digo porque eu mesma sou uma repetição. mas voltemos, por favor, só um instantinho mais. almoçar na tua casa. depois o que? claro, tu tinha que me mostrar algo no computador. qualquer coisa. uma cena de série. um pedaço de filme. minhas mãos suando. a gente e uma grande vontade de mostrar algo. mostrar uma coisa interessante. mostrar uma coisa que fosse interessante para nós, e que gostaríamos que fosse interessante também para o outro. talvez fosse vendo teu filme. talvez fosse ouvindo no mesmo fone a minha música. talvez fosse atravessando a barão de aratanha, indo para a sua casa, indo em algum mercantil perto comprar merenda, indo pra qualquer lugar. talvez fosse chegando na mundica paula, por que não? talvez em uma pracinha, com uma nossa senhora presa por trás de um vidro. talvez na hora do intervalo. sempre o desejo de se encontrar durante o intervalo.
eu sei que as coisas vão passar muito, muito antes do padre anunciar que elas iriam. desde criança, convivi com uma grande saudade de tudo. agora, adulta, a lição parece ser outra: as coisas passando, eu quero é passar com elas. mas não passo. eu fico nelas. vai passar, repito para mim mesma, incontáveis vezes, porque eu sei que vai, porque as coisas passam, porque muita coisa já passou. penso em todas as coisas que permanecem, e sei que elas permanecem porque são presentes, porque se renovam, porque se esticam no tempo. minha infância com meus amigos do colégio passou. eles ainda são meus amigos. esse amor não vai embora nunca, e sei que mesmo se um dia qualquer um deles se afastasse para onde eu não pudesse mais nem seguir nem olhar, esse amor permaneceria. mas existem tantas outras coisas no mundo que se vão. como eu preciso aprender algo que eu já sei?
você disse que torcia para existir outra vida, em que você pudesse fazer a coisa certa. meu problema é levar a sério demais tudo. bobagem minha: só uma pessoa muito tola confiaria naquilo que nasce da falta de coerência e da irracionalidade.
talvez pudesse começar, realmente, assim:
duas pessoas combinam de se encontrar em um bar. chove muito a noite inteira. elas descobrem que são da mesma cidade. elas se maravilham com essa informação: sempre bom encontrar conterrâneos em terras estrangeiras. mas, por qualquer motivo, parece melhor ainda. parece um segredo compartilhado. você se lembra, descendo a barão de studart, quando aparece o mar? não, não, mas de toda forma é a melhor parte de uma cidade de praia, a qualquer instante poder se surpreender com o mar. meus pais tinham uma brincadeira quando íamos para a praia, eu morava no montese, pois bem, a viagem naquele tempo parecia longuíssima, eu ia deitada no banco de trás, jamais permitiria uma criança fazer isso hoje em dia, claro, mas ia assim, e a brincadeira, vencia quem dissesse: eu vi o mar primeiro. eles me deixavam ganhar muitas vezes, minha mãe avisando que olha, já estamos perto da praia, só para eu me erguer e vencer: eu vi o mar primeiro. uma boa brincadeira de infância. continua chovendo. mais uma rodada de bebida. ficam rindo, rindo, rindo juntas. qualquer pessoa que passasse saberia o que estava acontecendo.
ou estamos perto demais? talvez fosse melhor se:
atravessando a barão de aratanha, tomo um susto com um carro. tu estende a mão para a minha, na adolescência sempre levei carão dos meus amigos por aderir muito à filosofia do ele não é maluco, ele está me vendo. rimos do outro lado da calçada. no meu caderno, um monte de fanfics em que reproduzo a nossa relação com o naruto e o gaara. sentamos no chão do seu quarto. é preciso voltar tanto assim no tempo para que dê certo? rio da minha própria imaginação, querendo resetar uma vida inteira, como se isso fosse solucionar algo. então somos adolescentes, ao mesmo tempo, já uma falha na estrutura, uma impossibilidade, mas somos, e sentamos no chão do seu quarto. sinto que meu coração está batendo dentro da boca, preciso ficar de dentes bem cerrados para que ele não escape. tu quer me mostrar no youtube algum vídeo de melhores momentos da copa de noventa e oito ou coisa parecida. concordo porque é mais fácil assim, apenas balançando a cabeça sem dizer palavra alguma. imenso silêncio. olhamos um para o outro. nessa altura, teus olhos ainda não são tão cansados. nos olhamos, nos olhamos. até.
não queria ter que ir tão longe, desfazer tantos fios. isso é apenas mais um exercício da imaginação que não cansa de fazer piruetas, aprender novos movimentos, essas coisas de atleta. queria que pudesse ser mais perto, e ainda ser certo. com a diferença no tempo e todo o resto: você começando a trabalhar enquanto meus cadernos ainda eram cheios de fanfics. o tempo passando e cada um caminhando suas passadas, até o encontro. continuamos com a alegria de termos aprendido a nadar no mesmo mar revolto. não tem como consertar o tempo, por mais que eu queira. meu problema é continuar achando que tudo é possível. ou melhor, tudo é possível, inclusive, evidentemente, o que eu não gostaria que fosse. é possível, muito mais que possível, um futuro que não obedece aos meus delírios imaginativos.
fico tentando resgatar tudo. por que tanto medo de perder aquilo que eu sei que devo perder? que eu sei que vai passar? lembro da respiração no meu rosto. não adianta. lembro de palavras nascidas da confusão: não querer que passe, não querer que cesse um sentimento tão bonito, parecer errado, parecer impossível. palavras, palavras. por que eu levo tudo tão a sério? respondo miudamente: porque era sério. porque era verdade, mesmo que só pudesse ser verdade assim, nas frestas. porque, porque. não adianta.
lembro de quando vi um beija-flor que parecia estar cortejando uma pedra, até eu notar que das ranhuras da pedra nasciam flores muito pequenas, de caules muito, muito, muito finos. era daquelas florinhas que sumiam na distância que o beija-flor tirava seu néctar.
não adianta imaginar, como não adianta desejar. as coisas não são de outra forma, elas são exatamente como são. tudo aconteceu no tempo que aconteceu. sem adolescentes, sem jovens, sem encontros na universidade. posso torcer para algum dia naquele mar revolto, eu e você lá, alheios um ao outro. eu e você nos esbarrando no centro da cidade. vivendo uma vida inteira alheios um ao outro. tendo que retornar a uma vida inteira alheios um ao outro. escrevo, escrevo, escrevo, tentando tirar algo de dentro de mim, tentando encontrar algo dentro de mim, tentando fazer sentido daquilo que não faz sentido algum. tentando entender meus motivos, imaginando entender os seus. por que viver algo assim? porque sim? resposta insuficiente. quero enfiar o dedo na minha ferida: por que nadar nesse mar?
me pergunto se ainda vou ficar muito tempo assim. me pergunto se preciso só gastar, gastar as palavras e as sensações. me pergunto se deveria escrever tudo aquilo que eu lembro, tudo, escrever como se escreve um romance, mas eu nunca escrevo romances, eu escrevo apenas as minhas bobagens, sonhos, cartas, postagens de blogs, eternamente presa em mim mesma e no meu diário.
termino com uma cena:
estar dentro de um uber e atravessar de fato a barão de aratanha, e sentir um aperto imenso no peito lendo a placa azul, e fechar os olhos por uns instantes e imaginar que no passado essa travessia pudesse ser feita de outra maneira. mas não adianta. tento consertar o tempo do jeito mais tolo possível. não existe para trás. tudo que é possível de fazer está no minuto em diante. não é assim que acerto o destino. o tempo esteve errado desde o começo. para acertá-lo, precisaríamos de muito mais que minhas duas mãos e o sentimento do mundo. para acertar esse tempo, só a quatro mãos.