primeiro eu quero falar de

de ontem para hoje, li o bluets da maggie nelson. enviei para a minha orientadora uma foto das três últimas proposições do livro -- i want you to know, if you ever read this, there was a time when i would rather have you by my side than any one of these words, i would rather have you by my side than all the blue in the world, seguida de outras duas, com a marca do fim da escrita, 2003-2006 -- com a seguinte mensagem: terminei a leitura pensando: ninguém no mundo sofre mesmo só. quando eu era apenas uma criança, maggie nelson estava escrevendo palavras que vinte anos depois cairiam no meu coração como se tivessem sido feitas para a minha experiência.

em dois mil e três, eu tinha oito anos e estava na terceira série. você fez quinze anos em julho, deveria estar no primeiro ano do ensino médio. em dois mil e seis, eu cursava a sexta série. você, o primeiro ano da graduação. maggie nelson escrevia bluets. em algum momento desses três anos, ela escreveu: above all, i want to stop missing you. ela escreveu: i loved a bad man. escreveu: to wish to forget how much you loved someone. escreveu: this is how much i miss you talking. this is the deepest blue talking, talking, always talking to you. escreveu: clearly, i am not a private person, and quite possibly i am a fool.

vinte anos depois de escritas essas palavras, eu não sou uma pessoa reservada, e sou uma tola. 

apago todas as nossas conversas do celular. meu amigo joão v. diz que se surpreendeu com a queima da biblioteca de alexandria. minha amiga sacha diz: sei o quanto você ama as Palavras. minha amiga gabriella diz: é bom porque você não tem para onde voltar. 

no começo do ano passado, escrevi na internet: queria ser a annie ernaux em paixão simples.

eu não sou uma pessoa reservada e compartilho um histórico de pensamento com outras pessoas não reservadas. no livro fogos, marguerite yourcenar escreve: já não tenho nada a temer. atingi o fundo. não posso cair mais baixo que o teu coração. escreveu: nos teus braços não poderia fazer outra coisa senão morrer.

acredito que deva ser melhor ser uma pessoa reservada. melhor? talvez mais chique. rio do meu uso dessa palavra. espero que seja possível sentir algo do meu senso de humor. ser uma pessoa reservada e não ser evidentemente uma tola. ser uma pessoa tola sem que os outros saibam disso. calado vence. eu falo muito, talvez por isso perca tanto.

dois meses e um dia atrás, era o seu aniversário. tenho vontade de escrever algo explícito e gratuito, sexual. geralmente não vou por esse caminho. por que não ir por ele agora? dois meses e um dia atrás era seu aniversário e eu chupava seu pau dentro do carro. uma grande alegria para mim. afinal de contas, agora eu poderia desejar e fazer. o sexo sempre foi importante para mim. guardei um segredo por muito tempo, primeiro de mim mesma, depois dos outros; depois segredo compartilhado com meu ex-namorado, que era virgem antes de mim. o segredo que deixa de ser agora: eu não consigo gozar. talvez revelá-lo assim à luz das palavras ajude. um segredo tão secreto que treze anos na analista não me permitiram compartilhá-lo com ela. talvez por não ser nada demais. talvez por não achar nada tão ruim. talvez por justamente não conseguir gozar gostar tanto de sexo, querer tanto transar, sentir uma coisa que só é possível sentir compartilhando com alguém.

já escrevi sobre gostar de sexo aqui. perto do dia em que escrevi sobre mãos no dia do seu aniversário, dois anos atrás. releio esse texto e novamente me deparo com o fato de a nossa ordenação do tempo ser mera ficção. dois anos atrás, eu já pensava nas suas mãos antes de conhecê-las. escrevi: um estudo sobre mãos enquanto falta de cuidado, e sufocamento, e dor. um estudo sobre o que mãos podem e não podem ser, podem e não podem fazer. estudar as minhas mãos e tudo de bom e de ruim que cabe a elas. estudar as suas mãos e descobrir o bom e o ruim contido nelas. estudar as suas mãos, mas não havia um verdadeiro endereçamento naquela época. ou melhor, havia, e eu ainda não sabia. 

não consigo gozar, e ainda assim me sinto condenada a passar o resto da vida sem transar com a pessoa com quem mais gostei de transar. e se pela exposição eu passasse a conseguir? talvez aí me libertasse dessa ideia. na última vez em que transamos -- aquela em que revelei a você que não conseguia gozar --, você colocou uma coleira em mim, um presente. você me disse para esperar de olhos fechados e comentou alegre sobre o balançar das minhas pernas, animadas, antecipando. uma coleira, você segurando a guia. minha analista me pergunta o que estar com um homem mais velho fazia comigo. um homem que parecia saber. então, uma coleira. ele sabe de alguma coisa. basta eu seguir.

o que será que maggie nelson fazia em dois mil e dez? eu estava no segundo ano do ensino médio. você, em algum momento, entrou em um ônibus cheio de outros graduandos das sociais para um congresso e encontrou a pessoa com quem construiria os quinze anos seguintes da sua vida. 

annie ernaux em paixão simples escreve: tinha certeza de que eu não era a única a viver essa experiência.

quando escrevi que queria ser annie ernaux em paixão simples, imagino que eu estava pensando que queria viver uma paixão como aquela, algo que me levasse até o limite de mim mesma. também havia algo de divertido e improvável de me imaginar sendo de fato como ela: amante de um homem casado. eu jamais faria isso. por algum valor moral? não, não. eu só não gosto de deixar ninguém triste. acontece, descobri, que é muito fácil não se preocupar com deixar alguém triste quando se está vivendo uma paixão simples. 

fui amante por um tempo muito curto, não nasci para o papel. maggie nelson, ao que parece, escreve do outro lado dessa experiência. where you would be spending a week with the other woman you were in love with, the woman you are with now. essa deveria ser eu agora. também não sou. sua esposa escreveu: te desejo tudo de ruim. dentre tantas bobagens que ela me disse, talvez a expressão desse desejo tenha sido a única certeira. 

gravo um vídeo de vinte minutos para atualizar os amigos próximos. estamos em setembro. no dia primeiro de setembro de dois mil e vinte e cinco, escrevi na internet que estava apaixonada por um colega de trabalho casado só para sentir alguma coisa. se eu imaginasse como se desenrolaria o ano seguinte, jamais teria escrito isso. 

em dois mil e vinte e seis, vinte anos depois de maggie nelson concluir seu bluets, eu amo um homem que perdeu tudo e que não pode me amar porque perdeu tudo. em questão de tempo, é até cômico pensar. quinze anos de relação aprovada pelos olhos de todos, inclusive das leis e de cristo. um mês de uma relação impensável e impossível. e esse um mês pode destruir tudo pelos nove meses seguintes. uma gestação de caos. um homem decidiu que ficaria comigo e voltou atrás. depois, de novo. depois, de novo. depois, de novo. existe um intervalo que fica maior entre cada tolice, mas que nunca nos tira do círculo. 

veja, eu não me ausento da minha responsabilidade. eu deveria ter acreditado depois da primeira tentativa que seria impossível. mas eu quis muito. no dia internacional da mulher (acho sempre tão engraçado!), você me procurou eufórico, me abraçou e falou do cheiro do meu cabelo. pouco mais de uma semana antes, eu tinha dito que não queria mais estar nessas idas e vindas da sua indecisão. você disse: eu sei o que eu quero. eu quero você. apesar do luto, da dor, da confusão, eu acreditei. vivemos um terrível mês até mais um fim, porque a sua culpa era muito grande e porque a minha visão do amor era muito idealizada. só porque a gente se ama a gente deveria ficar juntos? 

passamos dois meses separados. silêncio. meus textos desse ano acompanham tudo isso. tantas tentativas, tantos fins. você me procurou outra vez e me fez acreditar que passado esse tempo, seria diferente. eu entendo que você também acreditou nisso. três meses depois, fim. eu entendo que você também acreditou que seria diferente, mas como poderia ser se eu ensinei a você que era possível se aproximar de mim e me descartar, uma vez e mais outra, e outra vez ainda e mais uma? que era possível fazer isso repetidamente e me encontrar e se explicar e eu entender?

escrever esse parágrafo me enche de mais vergonha do que confessar que eu fui amante por um mês. me dá mais vergonha do que explicar que eu não consigo gozar. sinto mais vergonha em ter acreditado que poderia ser diferente algo que nunca foi diferente do que de qualquer outra coisa. sinto mais vergonha de ver a posição em que me coloquei do que qualquer coisa. suplicante. queira estar comigo, por favor. vamos fazer isso dar certo, por favor. minhas amizades todas me dizem que não há razão para se envergonhar por acreditar em alguém que se ama. minha orientadora diz: você erra, mas quando você erra, parece um erro para o bem, porque você erra de coração aberto.

hoje eu acordei com a certeza de que essa sensação jamais vai passar. 

em setembro do ano passado, tatuei it'll pass. enquanto a agulha perfurava minha pele, eu pensava em você. eu queria mais que tudo que a paixão passasse, ela jamais poderia se concretizar. naquela época, eu tinha certeza de que passaria e de que eu sobreviveria a isso. certeza de que eventualmente a impossibilidade venceria o desejo e eu seguiria sendo sua amiga e me apaixonaria por outra pessoa e viveria outra coisa. contei a você esta história quando estávamos juntos e você riu, eu não precisaria mais do encantamento que tentei fazer com a tatuagem. no fim, é como o texto sobre as mãos. fiz a tatuagem com a lembrança de que teria de esquecer você no futuro.

apaguei todas as nossas conversas para não ter aonde voltar. mas não consigo apagar o que existe na minha cabeça. fecho os olhos e lembro da nossa alegria diante do seu retorno. horas e horas de conversa. você me disse que iria provar para mim que valia a minha confiança. você me disse que ia me mostrar. quando contei essa história aos meus amigos, falei: ninguém promete mais do que o homem que quer voltar. talvez eu deva dizer também que ninguém acredita mais do que a mulher que quer de volta. 

queria que transar com você não fosse tão bom. é engraçado quando nosso coração está partido, quando perdemos um amor, quando se perde um mundo sonhado em conjunto. em conversas desse tipo, poucas vezes o sexo aparece. mas aparece em bluets, aparece em paixão simples. lembro de como era estar nas suas mãos, na sua boca e nos seus dentes. sempre um deleite sentir como você apertava minha cintura. existia alguma coisa no seu jeito de me tocar que me fazia me sentir muito consciente de que era eu quem você tocava, o meu corpo, ali, naquele momento. muito longe de qualquer fantasia ou memória. não era sexo pouco atencioso, distraído ou feito por fazer. eu me sentia ali. sentia você ali. fico pensando que nunca mais devo viver isso. minha analista ri de mim, sempre eu e meus nunca mais. nunca mais, nunca mais. o corvo se prende ao meu cabelo e nunca deixa a minha cabeça.

falo para a nossa amiga em comum que alguma coisa morreu dentro de mim. falo para você em uma das nossas últimas discussões que parece obsceno estar triste na sua frente. você é apenas o seu sofrimento e nada mais. você vive a sua dor como causa e consequência de tudo. você se odeia e um homem que se odeia tende a ferir a pessoa mais próxima ao redor. você me diz muitas coisas injustas. você me diz que eu ajo como se fosse fácil só seguir em frente. você me diz que eu queria ver onde isso tudo ia dar. você me diz que te deixa triste eu pensar que você desistiu de mim porque eu não conseguia gozar. você me diz que eu preciso ter cuidado de não tomar minhas narrativas como realidade. no dia seguinte, você me manda mensagem pedindo desculpas e diz: eu não sei se penso mesmo todas essas coisas que falei. eu digo que não importa, está tudo bem, ele não tem mesmo mais que me explicar nada. apago de novo a nossa conversa. não posso ficar voltando.

tudo parece demais e exagerado. converso com nossa amiga e digo a ela que a pior parte de tudo é realmente ter me apaixonado por você. é realmente amar você. é realmente gostar de você. minha amiga bruna me pergunta: por que você, uma pessoa tão abundante, escolheu estar numa história de tanta escassez? 

tudo o que eu escrevi nos últimos meses dizem respeito a ele de alguma forma. osman lins: só você me interessa. escrevo esse texto sem disfarces, longo, imenso, expositivo e cansativo. escrevo um texto sem beleza. escrevo isso e me pergunto: por que eu ainda quero você? o que você me oferece? o que eu procuro em amar alguém que me fere? passei mais de um ano para superar o término de dois mil e vinte e três com meu ex. o balanço: dois anos e três meses de alegria contra um mês e meio de sofrimento e dor. e com você? um mês e meio de alegria, contra todo o resto de confusão e tristeza. de que eu sinto falta?

existe, claro, respostas evidentes e psicanalíticas para essa pergunta. ele mesmo me acusou mais de uma vez de ver o amor de maneira idealizada. disse que eu acho que o amor justifica tudo e sobrevive a tudo. não tenho como me defender dessa acusação. até mesmo diante de você que me lê agora, sinto vontade de me explicar, mas sinto que não conseguiria. vejo o amor como uma disposição, um compromisso, uma tentativa de organizar algo. a paixão é um caos. ainda apaixonada, o que eu queria era viver o amor. o que vem depois do caos. não sou uma pessoa reservada e sou uma tola: o amor não como uma força misteriosa que nos faz ficar bem, mas como um motivo consciente para tentar. 

acho que não vai melhorar.

tenho medo de daqui a um ano ainda sentir falta. 

sonhei que estávamos diante do mar e eu dizia para ele o que riobaldo disse a diadorim: meu bem, estivesse dia claro e eu pudesse espiar a cor dos teus olhos.

talvez meu problema seja verdadeiramente a narrativa. minha organização do mundo. sinto que existe algo de profundamente errado comigo. depois, olho ao meu redor. percebo que ao longo de toda essa cansativa história, as mesmas pessoas me ouviram falar tantas e tantas vezes. em nenhum momento, nenhuma delas demonstrou impaciência ou desinteresse. todas as palavras recebidas, inclusive as mais duras, foram dadas com carinho e preocupação. até mesmo quando eu acreditei que as coisas poderiam ser boas, minhas amigas que não acreditavam na capacidade dele de mudar me disseram: mas você tem que buscar ser feliz, e se for com ele, tudo bem. 

então o amor existe.

então o amor não é só a minha idealização, o que eu acho que ele pode fazer a gente suportar, o que eu acho que ele pode fazer a gente atravessar.

então o amor existe, e eu o conheço, e ele existe em mim, e existe também em vocês. 

existe em mim porque existe em vocês.

hoje vai chover em qualquer outro lugar

marco no calendário que faz doze dias que eu choro sem parar.

ponderação: tem períodos em que outras pessoas choram por muito mais tempo. nesse exato momento, alguém chora todos os dias há um ano. alguém chora todos os dias há três anos. chorar por doze dias não é nada demais, não é nem um mês, não é nem metade de um mês. 

ontem tive uma crise de choro que entrou pela madrugada. mas antes disso, chorei porque pessoas da secretaria de pós graduação me responderam a um e-mail com tanta gentileza. eu pensei: eu sou um ser humano. ah! que grande descoberta. eu sou um ser humano, é possível que outro ser humano me trate com gentileza. 

veja, caso haja você, leitor, veja que esse texto é um texto de diário. eu tenho um problema de só escrever diário. e o problema maior é quando o diário não passa de um diário, quando eu não tenho ritmo, quando as palavras estão todas erradas, quando tudo é simplesmente o que é. ontem eu chorei porque me trataram bem. que grande bobagem. parece até que eu sofro. 

será que consigo recomeçar?

o trabalho na coordenação. eu sinto que meu dia é unicamente ouvir problemas. tentar resolver problemas. não conseguir resolver os problemas de uma maneira satisfatória. de alguma forma, o meu dia também é consistentemente formado por ser desrespeitada por adolescentes, por servidores públicos e por mães e responsáveis. chorando no divã, explico para a analista que eu entendo, porque os adolescentes são adolescentes e meus adolescentes sofrem mais do que o que eu jamais sofri na minha adolescência. os servidores estão todos adoecidos, cansados, exaustos, então eu entendo. e eu entendo as mães e os responsáveis, as mães, então, eu sinto que vou chorar diante delas, a exaustão delas ultrapassando o próprio corpo e estendendo os dedos na minha direção, eu nunca vou entender, mas eu entendo.

recito como consolo: trabalhas sem alegria para um mundo caduco.

(não sou tola, apesar de ser: isso não é consolo nenhum).

meus alunos brigam na escola, o diretor chama o batalhão escolar, estou no banco de trás da viatura entre os dois, amassada, eles são meninos altos, dezesseis anos, mas altos, muito altos, mas meninos, o policial olha para o banco de trás e faz um comentário sobre meu peso, sinto vontade de dar risada do absurdo de tudo aquilo, meu aluno com os lábios ensanguentados, o outro com um corte acompanhando o nó dos dedos. por algumas noites, só penso no meu aluno, o sangue dele e o choro que ele tentou prender até eu perguntar por que ele não procurou falar comigo. ele me diz, de dentro do vermelho da boca, a voz amassada pelo choro, ele me diz que não podia procurar ajuda porque se não os outros meninos. 

estou exausta das regras da masculinidade. um carro bate em outro carro que bate no meu carro. dois homens, um mais velho do que eu, outro que deve ter uns vinte e poucos anos. vamos resolver tudo conversando, bom, é isso, estamos aqui agora. meio segundo em que estou preenchendo o boletim de ocorrência on-line, escuto gritos. o mais velho empurra o mais novo. o outro responde com um soco. o mais velho: eu tenho um negócio aqui pra você, indo em direção ao carro. eu penso que merda, esse cara vai pegar um revólver. ah, é um faca. um faca empunhada na direção do outro, parado do meu lado com o celular em riste, eu digo: meu deus, vai pra lá. munida de uma autoridade inexistente, digo: guarda a faca. ele me olha confuso, hesitante. guarda a faca. ele fecha o canivete, põe no bolso. ainda muito séria: não, não no bolso. coloca de volta no carro. ele obedece. contando isso para a minha amiga, dou risada. olha como eu sou uma boa coordenadora!

minha cabeça dói e eu não tenho soluções. choro porque vou ao cinema e quase nove horas da noite encontro um aluno que trabalha em um quiosque do shopping. eu o vi de manhã na escola. parece obsceno eu estar me divertindo sexta à noite, e ele sorridente vindo me cumprimentar, de uniforme e touquinha no cabelo. alguns professores dizem que nossos alunos não querem nada. quando eu era criança, estava assistindo a uma reportagem com meu pai, que mostrava uma vida dura de uma família de trabalhadores rurais. a repórter perguntava a um garoto que parecia ser meu aluno e hoje deve ter quase quarenta anos: qual o seu sonho? ele respondia: tem sonho não, acuado pela câmera, o olhar muito longe. olhei para o meu pai e ele estava chorando. ele disse: essa é a pior coisa que pode acontecer. 

meu pai nem deve se lembrar disso e essa é minha memória mais importante com ele.

hoje meu pai me conta que vai ter que fazer infiltração em ambas as mãos. ele diz: meus ossos estão se desfazendo. uma vez, eu tirei cinco-vírgula-oito em uma prova de matemática na quinta série, ou na sexta?, e meu pai cerrou o punho e socou o painel do carro com tanta força que abriu um buraco. esses ossos estão se desfazendo. 

(como eu, meu pai é sensível e dramático. na verdade e em certa medida, somos iguais, ou quase, um espelho voltado para um espelho partido, e isso assusta a nós dois.)

deitada no divã, aos prantos: tem algo de errado comigo, tem algo de errado comigo. eu não sei o que fazer. o que me consola é saber que no mundo tantas pessoas sentem isso. trabalhas sem alegria para um mundo caduco. devo seguir até o enjoo? arquiteto falhado, músico falhado. odeia a burguesia, adora crianças. indesculpavelmente sujo. 

falo isso para a minha mãe, e ela diz que bem, mas o seu sofrimento é seu e dói em você.

minha cabeça dói. coloco meu coração na mão de alguém que dele não pode zelar e lamento comigo mesma estar presa no labirinto da minha tolice. lembro quando eu achava, sentia, pressentia que minha presença causava alegria. sinto o peso de ser um peso. sinto que meus sonhos se desfizeram todos. os sonhos de amor, li fanfics demais, é claro que não seria assim. os sonhos do doutorado, como eu pude achar que daria conta disso? os sonhos da escola, ah, os sonhos da escola. talvez se eu voltar para a sala de aula eu possa sonhá-los de novo. vou dar um recado em uma turma e um aluno que foi meu primeiranista ano passado diz, sorrindo: se deus quiser você é nossa professora ano que vem de novo. 

se deus quiser.

no caminho para a academia, vejo uma mulher dando água para um pombo. pergunto o que aconteceu e ela me explica que o pombo bateu no maldito vidro espelhado, eu e ela amaldiçoamos o vidro espelhado, ela diz que não sabe como ajudar, ele deve ter quebrado a asa, ele deve estar com uma concussão, ela aponta para ele: ó, o olhinho dele está fechando. ela trazia nas mãos uma vasilha cheia de pedaços de pão. para aquele pombo de asa quebrada, olhos fechados. as moscas já estavam perto. ela repete: eu não sei o que fazer. digo a ela o único e verdadeiro consolo, terrível em sua verdade, você faz o que você pode.

a casa assassinada

minha casa é devorada por formigas gigantes.

uma amiga me diz: se existe alguém capaz de transformar o que é feio em bonito, é você. isso, logo aprenderemos, não é um elogio. 

sinto que minha garganta não existe mais. nem sinto dor nela, é mais um cansaço. um cansaço. as formigas gigantes passeiam pela parede da cozinha e não há nada a ser feito. elas são noturnas. de dia, devem se recolher por detrás das minhas paredes, organizam seus cotidianos, conversam entre si, aos sussurros. à noite, vagam pela minha casa como donas. eu não vou matar uma formiga. eu não machucaria uma mosca, os melhores alvos são maiores. em alguma realidade alternativa, eu não faço tudo errado. nela, não estou cansada, e posso sorrir e respirar aliviada. as formigas não vão devorar o que quer que reste da casa. 

minhas palavras são todas erradas. ensaio diante dos estudantes tentar dizer a coisa certa. a plateia é pouco exigente, por vezes desatenta. sorrio diante deles, alguns sorriem para mim. confesso a meninos de quinze anos: estou tão, tão cansada. alguém me para no corredor e me pergunta se estou bem. cansada, sorrio e respondo que não. um cheiro de bicho morto se apodera da minha mesa. penso que isso é normal. devo ser eu mesma, criatura suja. ou estou morta e nem percebi. alguns dias depois, descubro que é uma marmita esquecida por um estudante, tão bem guardada que foi preciso investigar para descobri-la. posso ficar aliviada? as formigas não vão me devorar, ainda.

exausta, recito: tenho horror, tenho pena de mim mesmo e tenho muitos outros sentimentos violentos. esqueci como se lê qualquer coisa. esqueci como se escreve qualquer coisa. estou falhando outra vez. o travesseiro inundado de lágrimas lamenta comigo, oh, que pena, que pena. as formigas nas paredes continuam seus sussurros. um bicho qualquer que entrou no meu quarto passa pelo meu rosto, patinhas rastejantes cruzam, emocionadas, o rio que corta a minha bochecha. eu, um túmulo. 

um pedaço do piso se solta. até mesmo o chão já desistiu do seu serviço, ficar imóvel. sinto náuseas e me apoio no vaso sanitário, as mãos geladas. chamo um amigo de máquina de fabricar mentiras e me corrijo, carinhosa: máquina de inventar ficções. a única mentirosa sou eu. bem-me-quer, mal-me-quer. colo meu ouvido na boca da noite, e ela repete, docinha, docinha, que eu mereço, eu mereço, eu mereço. as formigas se apressam em seu caminho, em breve fabricarão um trajeto que dê conta de tudo que podem levar de mim. me desfaço aos pouquinhos, um presente dado em partes.

cansada, ouço alguém falar comigo e a voz não ultrapassa meu aquário. tudo muito, muito longe. repito diante dos estudantes: esse é o trabalho mais importante do mundo, e por isso quando algo dá errado é tão doloroso. sei que sou uma tola em todos os âmbitos. profissionalmente, um tola. daria meu sangue por isso. emocionalmente, uma tola. talvez amar seja o trabalho mais importante do mundo, e por isso tudo dói tanto quando. uma formiga sobe na minha mão, imensa, alada. sou fascinada por formigas aladas. baratas voadoras. esses bichos que podem voar ou não. depende apenas da sua sorte.

nada em mim funciona. um escorpião adentra pela minha boca. desejo que ele encontre um bom lar, talvez alojado nas minhas costelas. aos poucos, seu veneno vai se revelar inofensivo diante do meu. em algum momento, pareceu plenamente possível que as coisas iriam revelar por debaixo de uma camada de poeira que na verdade eram boas e brilhantes. mais uma tolice. a infância nunca me deixou.

de olhos fechados no escuro, ouço as formigas lentamente trabalhando. tudo será desfeito, um fio que puxei sem necessidade, desfiz o nó que nos mantinha em segurança.

o mundo fica silencioso e me diz que eu paguei por isso.

e eu vou te contar como

no divã, disse rindo para a analista que o único personagem com quem eu me identifico é o capitão ahab. ri porque é claro que eu não sou o capitão ahab -- mas eu sou. ela disse, em resposta, não somos todos? devemos todos ser um pouco o capitão ahab. mas quem mais entenderia a alma de um velho monomaníaco, obcecado por uma perseguição sem fim, amargando a própria alma pelo que ele não alcança, se não nós, meninas, garotas e mulheres escorpianas?

eu também não sou o capitão ahab porque não sei não dar risada. esse é o maior fato sobre mim: eventualmente, estarei sorrindo. lembro de estar sentada no banco do carro, o rosto vermelho de lágrimas, aquele lamento sem fim, e virar para o homem do meu lado, tresloucada, dizendo: e agora, com quem eu vou ver a copa do mundo?, antes de explodir em uma risada entrecortada pelos gemidos do choro. 

a primeira lição para os escritores medíocres como eu, viciados na própria experiência, no diário, na elaboração de si mesmos, é a seguinte: você não deve se levar tão a sério. 

sou apaixonada pela narrativa. ser apaixonada pela narrativa me faz esticar tudo até o limite. ou essa sou eu, buscando explicações e justificativas. ser apaixonada pela narrativa me faz aceitar mais um encontro, ouvir mais uma palavra, dar mais um abraço, passar mais cinco minutos juntos. e se for precisamente nesses cinco minutos que o dorso da cachalote vai se revelar no oceano? enfim poderei naufragar em paz: fui até o impossível. 

mandando um áudio para meu amigo, digo ensandecida: nada que eu li me preparou para isso, nenhuma música que eu ouvi me preparou para isso, a arte é tão menor do que a vida. coloco a frase aqui porque ele gostou dela, destacou-a das outras tantas coisas que eu estava dizendo. acho que eu já disse essa mesma coisa tantas vezes, em tantos momentos diferentes, falei para os meus alunos, falei dando aulas pra graduação, devo ter dito no blog, devo ter repetido as palavras de outro cearense escorpiano, viver é melhor que sonhar, essas coisas todas. meu pai me pergunta, preocupado: o que esses livros todos te ensinaram? e a resposta que eu nunca poderia verdadeiramente dar é um aliviante nada, nada, nada, não me ensinaram nada, me puseram à mercê da imaginação, mas aprendizagem mesmo, só o aqui, o agora. 

talvez essa seja uma mentira. não devo corrigi-la. 

muito tempo atrás, o homem que [aqui me falta uma forma de caracterizá-lo. era melhor escrever você. ainda que o destinatário jamais leia o texto, é para ele, e você resolvia tudo que não está resolvido depois desse que. o homem que eu amo, mas não posso. o homem que eu sinto falta, e raiva, e mágoa, e saudade. o homem que alguma outra besteira como essas. o homem que acabou com tudo. o homem que escolheu morar em um incêndio] um dia estaria pranteando ao meu lado, inconformado com as nossas próprias escolhas, me perguntou se um dia iria presenciar o lançamento de um livro meu. enquanto eu tomava banho, a água escorrendo levando embora meus fios de cabelo, que há mais de um mês caem aos milhares, pensei: se eu lançar um livro, ele nunca o lerá. me pareceu aí tremenda a distância entre quem nós fomos, quem poderíamos ser e quem acabamos nos tornando. 

muito tempo atrás. 

eu sonhei muito. qualquer pessoa que conversou comigo nos últimos oito meses sabe que eu sonhei muito. minha amiga me pergunta: você acreditou mesmo, ou apenas quis acreditar? e a dor é ter de responder que para além de qualquer racionalidade, qualquer ponderação, eu de fato acreditei. escrevi isso antes, e devo me repetir agora: o coração partido é um tema monótono. lembro de muito tempo atrás, a sensação de formigamento, calor. uma paixonite lúdica, eu brincava, mas como outro amigo me ensinou, até brincar é sério. disse que uma pessoa que escreve como eu não pode se levar tão a sério. o outro lado da moeda, ou o outro lado da minha moeda, é que eu rio muito de mim mesma, e levo tudo que não eu mesma a sério. então brincar. então me apaixonar. então sonhar. 

a passagem do tempo me atormenta. sei que ele vai passar e será a única forma de alívio. tantas coisas aconteceram no espaço de quatro meses na minha vida que eu sinto que agora estou passando por um processo de descompressão. se tanto mudou em tão pouco tempo, o que mais pode mudar? não faço ideia de como estarei me sentindo daqui a dois meses, três. daqui a mais oito meses. e ainda assim, sinto tanta pena, é engraçado. lembro do fim do meu antigo namoro quase três anos atrás, como eu ansiava pela passagem do tempo, só a passagem do tempo me salvaria, diminuiria o sentimento, resolveria a dor. sei que ela fará isso, mas quase quero recusar. por favor, não passe tanto assim, dessa vez eu não quero esquecer. sei que isso é loucura, uma loucura que ecoa a loucura de muito tempo atrás de um homem sem promessas: ele dizendo que não queria que passasse. eu ria, eufórica. fico me perguntando o motivo de agora estar tão debilitada, de precisar até ir num psiquiatra depois de dez anos. o silêncio onde antes havia uma presença não é nenhuma novidade. então por que chorar tanto?

na academia, escuto change your mind depois de uns doze anos. conto repetições estúpidas enquanto a voz do brandon flowers enche os meus ouvidos, so if i have a chance, would you let me know? e eu sinto vontade de morrer e de dar risada. fico com a segunda opção. essa deveria ser outra das nossas músicas de vítimas da imaginação. imagino por uns segundos o mês de dezembro, como seria, você dirigindo o celta e eu cantarolando no banco do passageiro. acabo de tomar um susto: olha só, escrevi você sem nem pensar. não volto para me corrigir. consigo saber precisamente o olhar dele diante desse susto, e diante dessa música, se ela tivesse sido ouvida, tanto tempo atrás. sozinha, sigo sendo vítima da imaginação.

tenho vontade de pedir desculpas aos meus amigos. mas mais importante é agradecer a eles. o pedido de desculpas segue porque estou novamente escrevendo sobre o mesmo tema. queria olhar para outras coisas. sinto que olho, às vezes. o mundo continua acontecendo. tenho medo de deixar de ser interessante de se estar por perto. o que fazer com um coração partido? tento ter aulas comigo mesma do passado. como foi mesmo que a gente passou por tudo aquilo? parecia o fim do mundo. era o puro desespero. agora não me sinto desesperada, mas a sensação é a de que as coisas estão fora do lugar. material de pesadelo: os dias correm normalmente, mas na garganta você sabe que tem algo de errado, um pressentimento, seu coração bate em alerta. algo está fora do lugar, mas é impossível corrigir. você tem que continuar andando pelos corredores, cruzando as praças, olhando para os caminhos outrora caminhados a quatro pés, quase vendo a sombra daquilo que deveria ser. mas não deveria ser, porque não é. as coisas são apenas o que elas são. 

tenho vontade de pedir desculpas aos amigos porque sinto que eu devo fantasiar demais. eu poderia narrar essa história de outra maneira, à maneira da raiva. eu poderia vomitar escorpiões, alfinetes, lâminas. eu poderia transformar tudo em outro tipo de pesadelo. não consigo. disse a minha amiga que o amor me deixava burra, ela negou prontamente: o amor não te deixa burra. ela tem razão. o amor não me deixa burra. eu consigo enxergar todas as feridas, e ainda assim. ainda assim: sussurro no escuro do quarto, a mão sobre o coração, como se no silêncio absoluto minha voz pudesse atravessar tanta distância: volta.

quando tudo passar, e vai passar, talvez eu me surpreenda com o tanto que eu senti. uma astróloga me diz que esse ano vou aprender sobre o lado destrutivo do desejo. é o que tenho feito desde janeiro. em outro janeiro, daqui a um ano ou dois, posso ter o resultado dessa aprendizagem, olhar para trás e pensar que tudo aconteceu como deveria para que soubesse o que sei hoje. mas esses são planos para o futuro. lembro da ferrante: a vida, ao contrário dos romances, não tende para a clareza, mas para a obscuridade. eu ainda devo ruminar por muito tempo, até inventar um sentido.

é demais abrir o coração assim? anos atrás, um anônimo me disse que deveria ser muito bom ser amado por mim. achei e acho engraçado: a imaginação. fazia muito tempo que eu não amava alguém dessa maneira tão totalizante e totalitária. o desfecho era assim tão evidente? a imaginação, uma falha. 

escuto transatlanticism depois de muito tempo. uma escolha deliberada de enfiar a décima espada em mim mesma: no tarot, o recado de que do chão não tem como passar. quando adolescente, a repetição do i need you so much closer parecia ser a mais importante já ouvida. agora, the rhythm of my footsteps crossing flatlands to your door have been silenced forevermore me deixa estarrecida. nunca mais?

lembro daquele dia, o reencontro. olhar para trás e saber o que se perdia. quantas vezes choramos juntos. alguém além de mim para acreditar que algo bom poderia sair de tanta lágrima? os livros não me ensinaram mesmo nada: há muito tempo tudo o que eu mais gosto de ler é aquilo que me dilacera. fecho os olhos e vejo novamente meu último vislumbre dele: duas horas da manhã, deixando meu prédio para entrar num uber. fiquei parada ainda muito tempo no mesmo lugar, diante do vazio da rua. para sempre surpresa com a mesma lição: como tudo que amamos pode se alterar em um instante. é sempre engraçado. tudo que é bom acaba abrupta e rapidamente. tudo que é dor precisa do exercício de uma vida para passar.

o coração partido é um tema monótono. agora sou insone: durmo duas, duas e meia da manhã. quanto sofrimento besta. todo mundo sabe que vai passar, inclusive eu, ainda que dessa vez eu saiba que estou me agarrando além do que devia a dor, como se dela ainda pudesse brotar algo. quero parar de escrever esse texto. como em frederico paciência, com uma anedota deixada para o final, ficamos com essa: no começo do ano, um dos meus alunos mais amados me disse, falando da sua mudança de cidade: para viver um sonho, a gente tem que deixar algumas coisas para trás. 

depois do fim do mundo

quatro meses atrás, eu tive uma experiência extática. vi deus ou vi com os olhos de deus uma luz que jamais verei outra vez. lembro do rosto, das mãos sobre as pernas, os botões da camisa, lembro do olhar estarrecido diante do meu deslumbramento. sorrio: e tudo isso dentro de um celta 2013. nesse dia, você me diz: eu quero viver no seu mundo. quatro meses atrás, outra vida. eu quero viver no seu mundo. outra vez já tive que escrever que era impossível, impossível para você cruzar a fronteira, a barreira, o limite, essa coisa que as pessoas inventaram para separar a terra, que é uma só. e ainda assim, fronteiras, barreiras, limites. você arrisca colocar o pé, a travessia. você arrisca, arrisca um pouco, o coração despenca feito pedra. a sentença: você quer viver no meu mundo, mas não pode, não consegue. dentro de um celta 2013, vejo você como nunca vi ninguém, e como nunca poderia ver outra vez. o meu mundo, o seu mundo. impossíveis um para o outro. 

contei uma mentira – disse que não valia a pena. não posso mais me corrigir, não tem como voltar atrás, impossível regressar, modificar qualquer decisão, qualquer escolha. tenho uma crise de riso diante da nossa amiga, crise de riso que parece que a qualquer instante vai se tornar um choro copioso, e digo: deu tudo tão errado, como pode ter dado tudo tão errado?, surpresa com a minha surpresa. como eu não poderia imaginar que daria tão errado? penso em você, quatro meses atrás: porto seguro, rocha sólida, alguma firmeza. e agora? eu deveria me arrepender profundamente de tudo: sinto falta do meu amigo. tudo dói, eu me arrependo, eu não me arrependo. 

sinto que já não adianta mais escrever. sinto que já repeti tudo. penso: preciso me organizar, ser uma amiga melhor, uma professora melhor, uma leitora, uma pesquisadora, uma filha melhor. mando mensagens para algumas amizades entre o pedido de desculpas e a gratidão eterna por me escutarem tão repetidamente. minha repetição favorita: me repetir sobre me repetir. queria conseguir me livrar de outro jeito, ser alguém que não precisa falar, não precisa escrever, não precisa lembrar, rememorar, matutar. ah, que canseira dessa personalidade, desse jeito de estar no mundo, desses olhos, dessa voz, um cansaço imenso de mim mesma, mas é o que eu tenho, é o que eu tenho. penso na admiração por todas as pessoas que ao contrário de mim não sentem como necessidade essa exposição de si, compartilhar o que pertence às folhas de caderno, à caligrafia. poderia eu me transformar em outra? e que imenso cansaço também, lamentar que sou assim, sonhar em ser outra. 

você diz, algo impaciente: não, você não entende. como se você precisasse defender essa dor de qualquer tentativa de compreensão com unhas e dentes. como se não fosse possível entender a dor, mas fosse possível entender que a partir dela, tudo é possível, até o que era impossível: a partir dessa dor, é possível prejudicar, ferir, machucar. a dor de um bicho, não se entende, apenas aceita-se a mordida, o arranhão, é um animal ferido, você não entende, é preciso suportar tudo, tudo, tudo para que essa dor pareça acolhida. a punição é justa e necessária, a punição há de purificar nossas almas, a escolha é por sofrer, por amargar, por ferir, apenas assim poderemos ser salvos. 

nunca pude dizer, é você que não entende. e também não posso dizer. não posso dizer porque você não pode me ouvir, também porque falar, explicar é impossível. se minha dor era sentir que você não podia me ouvir, então eu precisava escutar. escutar, escutar. tudo o que você me disse e tudo o que silenciou. 

paro de escrever.

isso aqui é apenas um post de blog. sem exercício estético, sem pensar na escrita. penso em reler as coisas que escrevi dois meses atrás. a tragédia e a dor de tudo, permeadas de saudade, de desejo, de vontade. não releio. ali, o mundo ainda parecia possível, mesmo não sendo. o diário dos meus sentimentos era menos exaustivo, talvez. esse aqui, não. enjoo das minhas próprias palavras. o coração partido é o mais bobo de todos os objetos estéticos. disco arranhado, lar dos maus poetas, como eu. penso em apagar tudo, não apago. penso em como poderia salvar qualquer uma dessas coisas (minhas palavras, eu, você, a gente) e não posso salvar nada. talvez essa seja uma forma de liberdade: dar-se conta de que é impossível salvar e ser salva. sua ausência pesa no meu dia a dia, mas eu sei, já aprendi, que vivemos a partir das ausências significativas, a partir delas, com elas, contra elas. imagino um mundo paralelo, alguma escolha certa sendo feita, então podemos estar rindo juntos, podemos ouvir uma música, podemos assistir a um jogo. é difícil não considerar que essa é a pior das alternativas, que tudo foi precisamente construído para dar errado. saturno devora as suas filhas, e as vomita, e as devora outra vez. toda dor para a filha devorada se transforma em lição: dessa vez, evitarei os incisivos, não rompa a minha pele, apenas me triture. em outro mundo, em outro mundo, nem o meu, nem o seu.

– é claro, agora mesmo eu não passo da mistura do lamento e do sonho. ainda na barriga de meu pai, sei que é, como sempre, questão de tempo. o mundo acaba e recomeça hoje mesmo, todos os dias. com um sorriso, lembro das suas mãos se movendo durante uma história, uma explicação, uma indignação. com um sorriso, lembro de rirmos juntos, até no meio do desespero, até que não foi mais possível (, mas ainda foi, não foi? um sorrisinho no meio das lágrimas, comigo é sempre possível). com um sorriso: dois meses atrás, um mês atrás, quatro meses atrás: sua boca sobre a minha, seu corpo, tão sólido, tão sonhado, contra o meu. às vezes, vinha como surpresa, com um sorriso, a maravilha de se encostar, apoiar, acolher no corpo amado. um mundo, o mundo era possível. 

nos meus sonhos, você surge esbaforido, olhos enormes, a boca buscando ar: prestes a dizer algo que lançaria nós dois ao abismo. na minha memória, as lágrimas rolando pelo rosto em tantas ocasiões diferentes, e o seu abraço. no meu dia a dia, apenas o nosso silêncio, que já não é mais aquele silêncio compartilhado. está tudo bem. um mundo ou o mundo será erguido ou reerguido. para o bem e para o mal, as coisas são sempre impossíveis de serem vividas, até serem. 

você me disse que eu ia ficar bem porque sou cheia de amor. deveria ter te devolvido com outra dessas verdades que são impossíveis para você, enfraquecido de si mesmo: cheio de amor ou não, você também há de ficar bem. 

as coisas que a gente vê

duas crianças chegam na quadra, uma menina e um menino. ela é mais velha, veste uma blusa do fortaleza, está de chuteiras, carrega uma bola e uma garrafa de água, prontamente colocada no chão. ele, menor, mais novo, outra blusa do fortaleza, pés descalços. são irmãos, e ela vai ensiná-lo a jogar. primeiro, claro, precisa dar uma bronca por ele estar sem chuteiras. depois, ela põe o pé sobre a bola: – primeiro você domina, diz. depois você chuta. ela faz uma demonstração desse princípio que agora me parece elementar. primeiro você domina, depois você chuta.

depois de um tempo, chega uma terceira criança, a menorzinha de todas, uma menina coberta por uma terceira blusa do fortaleza. apelido os três, carinhosamente, de trio carniça. aqui é vozão etc. a irmã mais velha diz ao menino do meio: toma cuidado com tua irmã, que ela é pequena. é uma cena maravilhosa. a mais velha estendida no chão da quadra. o do meio pega a bola e, diante de um pingo de gente, diz, com toda a sabedoria do mundo: pilar, primeiro você domina, depois você chuta. 

vivo imersa num mundo de metáforas. você não deixa passar uma, ele me diz, sorrindo. a professora que eu amo perdoa a minha obsessão pela literatura porque ela desgraça a minha vida de um jeito bonito. sinto que faz tanto tempo que não leio nada, não ando lendo as coisas direito. leio parágrafos, páginas, poemas. as coisas vão ficando pra trás. ainda posso dizer que sou obcecada pela literatura? sou obcecada pela literatura de tudo. osman lins: vivemos imersos em textos virtuais. 

nas ruas e nas praias da minha cidade natal, gatinhos por todos os lados. tantas coisas banais me comovem. queria ser uma escritora melhor. queria escrever as coisas que eu gosto de ler: personagens em diálogo, ação, enredo. condenei a mim mesma a ser uma eterna escritora de diários. querido diário, a ferida no meu lábio está cicatrizando. outras ainda hão de levar um tempo. 

a paixão é um estado de adoecimento. deixar a paixão também adoece. o mais terrível dos consolos amorosos são os seus amigos dizendo que a pessoa que feriu seu coração não te merece. pior ainda é ter um certo reconhecimento de que sim, é verdade, não merece. mas o que é que é de se merecer no amor, na paixão? merece ou não merece o esforço, as palavras, a vontade, o desejo? vocês, meu diário: eu sou a tola que não entende? essa devia ser uma conta simples? quem merece, quem não merece. a paixão é um estado de adoecimento: meus amigos tentam me ajudar, mas eu preciso enfiar o dedo na tomada e descobrir sozinha o quanto vai machucar.

a obsessão pelo texto me faz olhar para o mundo como se sempre houvesse mais alguma coisa acontecendo. inúmeras coincidências me colocam pra pensar na narrativa. meu ex-namorado me dizia que eu temia demais a narrativa. é engraçado porque é verdade. eu e o homem que me adoece pedimos um maço de um tabaco desconhecido num bar, apenas para descobrir que era o mesmo que ele havia dito que fumaríamos juntos. a narrativa: as coisas que a gente vê por trás das coisas que a gente vê.  

meus sonhos com o mar pararam. sinto falta. lembro do dia em que sonhei que ele me entregava o moletom, eu com as pernas eriçadas de frio na areia, e então mergulhava, e eu ficava lá, olhando, olhando. o sonho com o jogador do boca juniors, aposentado, eternamente num posto de estrada ao lado do telefone esperando uma ligação que não chega, e ele vindo me contar essa história com lágrimas nos olhos. o sonho com gatinhos feitos de sonho. o sonho da janela, eu sinto que você abriu uma janela, ele disse, e tornou-se sonho. gostaria de perguntar: você se lembra das coisas que a gente vê quando nossos olhos estão fechados? não posso nem devo mais perguntar nada.

fico feliz por estar na escola. me encantar pelos alunos me alivia: estar na escola é estar num ambiente que funciona com outras regras, um trabalho que só quem entende é quem está nele, porque é como estar num palco, mas do outro lado temos não uma plateia e sim, outros atores. pode ser que faça bem. as coisas que a gente vê quando sente esperança. ainda não deu tempo de ficar cansada da rotina escolar. ano passado, inscrevi uma segundanista no vestibular e ela me agradeceu efusivamente. esse ano, sou sua professora: ao chegar na porta da sala e me ver, ela exclamou finalmente!, com uma profunda satisfação. finalmente! imagine uma adolescente ver você diante da lousa e com alegria exclamar um finalmente. 

uma vez, perguntei a ele se sonhar tanto me tornava uma boba. ele negou, mas não consigo mais evitar a sensação. sonhar tanto, uma bobagem. devo ter que aprender isso também. senti que estava aprendendo tantas coisas novas, coisas bonitas, que valiam a pena. aprendendo e reaprendendo. talvez eu sofra agora de ter que largar tudo isso no meio da lição. afinal de contas, eu sou uma aluna que se tornou professora. 

ele me perguntou se tudo só teria valor se o final fosse diferente. saindo com meus amigos, um deles lê a pergunta de um jogo: é melhor amar e ter perdido ou nunca ter amado? todos concordam que é melhor amar e ter perdido. a professora que eu amo diz que vou encontrar paz antes dele, porque eu tentei tudo que era possível, estiquei até o limite. de certa forma, então, somos iguais, ainda que buscando resultados diferentes. depois, me corrijo. lembro de como o medo atua sobre cada um de nós. viver é muito perigoso, carece de ter coragem.

nos momentos mais difíceis, minha ideia era: eu já vi que é possível viver o que há de doído no mundo com essa pessoa. pensava: vai chegar a hora de aprender também a viver o que é bonito, tranquilo, bom e divertido. meu amigo lucas s. me diz que essa parte boa a gente nem precisa aprender a viver, gente só vive. as coisas que a gente vê quando presta atenção. anoto quais são os meus lamentos: lamento ter me enganado, lamento ter sido bobinha, bobinha, a ponto de acreditar tão piamente que chegaria o momento da sua risada solta. lamento que ele tenha feito tudo para comprovar minha tolice. não, você não devia ter acreditado. as coisas que a gente vê quando escolhe ter o peito aberto. 

o que era tanto que eu gostava de ver? lembro dos olhos castanhos, cansados, olhos bovinos, doces, mansos. o cabelo bagunçado no qual eu queria botar a mão. as mãos se movendo durante as conversas. os braços, os ombros. gostava de olhar, olhar, olhar. meu olhar carregando um monte de certezas que dariam em nada. as coisas que a gente vê, as coisas que a gente não vê. 

preciso reaprender a mesma lição de uns anos atrás. como reorganizar o tempo, o espaço, o corpo. reordenar o olhar. olhar para as coisas e não pensar no que elas carregam de sentido atrelado àquelas mãos que não mais tomarão as minhas. olhar para as coisa e vê-las pelo que são, com o sentido delas próprias, ou outro qualquer que eu crie. lembro que a narrativa me assusta, mas eu nunca fui personagem, sempre fui narradora. 

quando ainda era possível, disse a ele que o mundo inteiro era uma recordação de que ele existia. as coisas que a gente vê quando estamos flutuando com os olhos na altura das ondas. é verdade, mas não é isso: erguendo a cabeça acima do mar, olhando para o mundo, a verdadeira recordação é a de que tudo, o mundo, existe. é a que eu existo. 

primeiro eu quero falar de amor

no telhado da escola, um gato preto. eu e ele passamos três minutos nos encarando. if you were a teacher i would fail your class. rio dos versos surgirem assim na minha mente. penso em pegar o celular para registrá-lo, ele vai embora. and i can wish all that i want, but it wont bring us together. repito para mim mesma meu novo mantra: deve haver uma lição nisso. coração partido, mãos vazias, pés confusos e lágrimas ardentes: deve haver uma lição nisso. certo? fico horas aos prantos, sentindo as metáforas mais banais: buraco se abrindo no peito, estômago se revirando, tudo cheio de nós. é tudo tão banal. seus gestos: tão comuns. as coisas que eu tive que ouvir: tão normais. continuo: por que nadar nesse mar? por que as coisas aconteceram assim? a resposta simples: 

(pergunto a você se em algum momento você realmente acreditou que a gente era possível. você diz: sim. pergunto a você se deixou de acreditar. você diz: a resposta simples, sim.)

porque sim. 

ou: porque eu quis. por que viver tudo isso? porque eu quis. só por isso? por que as pessoas (as pessoas, ou eu, ou as pessoas como eu) buscam um sentido e uma compreensão impossíveis de alcançar? na verdade, não adianta buscar um sentido, talvez apenas construi-lo. fabricar um elefante com seus parcos recursos. por que algo assim se pôs diante dos meus olhos, e assim eu quis, e assim aconteceu? sentido exterior, destino? essa é uma boa construção? é tudo só porque queremos o que queremos? eu quero e eu faço o que eu posso e o que eu consigo? vivendo o desejo mesmo sabendo que algo seria quebrado, partido, dilacerado depois? ou é porque eu acreditei, verdadeiramente acreditei, que poderia ser diferente? que eu poderia, mágica, transformar o impossível em possível?

você diz que eu não faço ideia do efeito que tenho em você. você acha? eu vejo que você colocou fogo em tudo. por fogo em tudo, inclusive em si. por que colocar fogo em tudo, fazer tudo ruir e ficar de pé, parado, congelado dentro das cinzas? por que não fazê-lo, também? por que não procurar dentro da fuligem tudo aquilo que ainda restou, e tentar preservar? o que me dói é que eu entendo os dois caminhos, mas só vejo sentido em um e você só vê sentido no outro. nós somos parecidos, e também não somos. o que fazer com a vida virada do avesso? o que fazer com o fogo? lembro do cheiro de queimado quando eu cruzava de ônibus uma curta distância, pensando em distâncias ainda maiores. era por isso? a fumaça que eu sentia, mas não via, anunciava você e sua destruição? como eu não saberia o efeito que tenho em você, se você incendiou sua vida inteira em troca de trinta dias? no fundo, sabemos: eu não sou a razão de você ter feito tudo isso. mas eu sou o fósforo. who am i to ask for more, more, more? a professora que eu amo escuta meu lamento de ter perdido um amigo e me diz que eu ganhei mais do que o que eu perdi, mas que a questão era que eu queria tudo. muitos anos atrás, tentei traduzir um poema da anne carson: uma clínica para pessoas que querem tudo, o que faço com os meus olhos? 

as amizades dizem: porque você tem o coração aberto. porque é importante isso, ter movimento, as coisas acontecem porque elas precisam se mover. porque talvez fosse o que era necessário para que outras coisas pudessem ser possíveis. porque você precisa escrever, essas coisas acontecem porque você precisa escrever. e eu continuo, mesmo diante de todas as respostas levantadas: por quê? por que tinha que ser assim e não de qualquer outro jeito? you told me this gets harder, well, it did. digo a mim mesma que consigo ser funcional, que consigo viver, fazer as coisas que tenho que fazer. meu quarto está uma bagunça, vou jogando as coisas na mesa. não consegui tirar roupa nenhuma do varal. consigo fazer aquilo que sei que preciso fazer para os outros: lavar a louça, certo, isso é possível. terminar de ler um livro porque me comprometi a mediar um clube de leitura. organizar um plano de aula, afinal, esse é meu trabalho, e é um trabalho que faz sentido porque eu me importo com ele. entro na água quente do banho e fico muito além da conta. parece impossível sair. parece impossível me mover. 

ficamos horas juntos, imóveis, porque não temos futuro, apenas o presente. como no avalovara, uma tapeçaria medieval: tudo é presentificado, está tudo acontecendo sempre, o tempo é uma espiral na qual você pode saltar de um ponto para o outro como o pássaro do meu contentamento, então eu digo: olha ali você com a blusa amarela do corinthians, tá vendo? e respondo que você não vê, seus olhos não veem essas coisas; e você diz, algo ressabiado, algo debochado: eu sou careta demais, normal demais. eu concordo, mas não é verdade, mas é verdade, também. tudo é e não é, como diria o riobaldo. choro deitada no seu colo, você chora enquanto me segura. você me diz que te dói que eu te faça tão bem, e que em retorno, você me faça sofrer. não consigo responder nada, porque não há nada que eu possa dizer. quero repetir as palavras que você mais odeia: vai passar. vai passar. que bobagem, não é? then you'll discover that it's never over.

(você aponta para meu braço: não acredito que vi esse pássaro. lembro da ligação, você o descrevendo para mim e meu coração acelerado: só pode ser um alma-de-gato! nossa mútua alegria quando você confirma que sim, é sim, o meu pássaro, o meu pássaro que carrega em si o nome do seu bicho mais amado. depois, olhando para a minha boca, o talhe no lábio feito por você uma vida atrás, ainda fundo, ainda marcado, mais marcado que todas as outras ranhuras ressecadas: por que não sara?, pergunta, consternado, enfeitiçado. lágrimas nos olhos, eu digo: eu não sei, eu não sei, eu não sei por que não sara. tudo deve ser um sinal quando se deseja o suficiente.) 

houve um tempo em que acreditei viver com uma assombração. para onde eu me voltava, com o canto do olho, podia pressenti-la, observar seu vulto, saber que ela estava lá. fiquei assombrada por meses. hoje, acho graça. não vivo com uma assombração, mas convoco um fantasma, um espectro, a sua presença. não preciso fechar os olhos, não preciso olhar de esguelha, sou eu quem chama. passando por tantos dias longe e sabendo que você deveria estar lá: dentro da água, ou num bar, ou numa rede, ou no show, no aniversário de noventa anos do meu avô, no café da manhã, no horário do almoço, ou separando turmas, ou ouvindo música, ou aqui e agora. você não é uma assombração. se formos pensar bem, talvez seja o contrário. você me diz: você não quer que eu te esqueça. eu digo: me esquece amanhã.

(brinco com meus amigos: minha única patologia é o amor romântico. de resto, funciono perfeitamente.)

fumamos nossos últimos tabaquinhos, você fala sobre como eu digo não com tanta facilidade para você, que faz tudo que eu digo para a gente fazer. e a conclusão disso é óbvia e evidente. eu carrego comigo o maior dos sins, e te dou pequenos nãos onde eles podem ser dados sem muito dano. você concorda com tudo que eu sugiro, enquanto me oferta na jangada da sua mão o grande não.

por que viver uma dor certa? li em algum lugar que o último gesto do amor é sempre a perda. perde-se o amante para a vida ou para a morte. então sempre se vive uma dor certa. por que me debruçar tanto sobre essa pergunta, se é apenas o que todo mundo faz, viver dores certas? vai doer, e vamos viver. vai doer enquanto vivemos, vai doer depois, durante, antes, em algum momento há de doer, e vamos viver, ainda assim vamos escolher viver porque basta, como diz a inominada para o abel, um segundo que ilumine tudo, e por esse segundo você escolhe continuar. meu problema é não saber soltar. meu problema é que eu queria mais. meu problema é que agora é preciso perder algo que brilha, que está vivo, que se move, que respira, que tem calor. lembro de antes, lembra que havia um antes?, quando você me olhava e eu pensava e dizia para minhas amigas: ele me olha com muito amor, é impressionante, mas eu sou doida; e aí descobrir que eu não era doida, e que era amor, e que agora, depois, você ainda me olha assim, feito miragem ou milagre, e é preciso que seja memória.

(o tempo todo que estive ao seu lado, o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo, tive um único mantra, o mais simples, o mais tolo, o mais impossível, o que menos dependia de mim e de qualquer uma das minhas ações, o que precisava mesmo de fé, de crença, de olhos fechados, o tempo todo, colocando as mãos sobre seus olhos ou a boca na sua, rindo enquanto tomávamos café da manhã, fazendo alguma piada diante do seu rosto miserável para que eu pudesse ouvir um segundo da sua risada, a todo instante, em cada minuto, em cada segundo do seu lado, o tempo todo, o pensamento que englobava tudo, que abraçava tudo, que ecoava sem parar na minha mente, a maior das dores, a maior das tolices, a pior das coisas, que é pedir, pedir, pedir, pedir, de olhos fechados, e saber que ninguém vai atender, mas pedir mesmo assim: por favor, mude de ideia.)

fui uma criança da mitologia grega. era uma obsessão muito séria, levada seriamente pelos meus pais. eu não sou uma pessoa séria, embora eu leve tudo a sério. orfeu e eurídice me comoviam, mas não me interessavam muito; algo engraçado de se dizer, quando penso que tanto do que eu gosto está nos dois. eu gosto de amores impossíveis. eu era uma adolescente que escrevia tragédias amorosas. por que nadar nesse mar? porque era o meu mar, e também o seu? o mar revolto que nos ensinou a estar na água. posso repetir: eu queria ser mágica. queria ser uma narradora que cria, e não que vê. eu queria desfazer o que fiz na adolescência, desfazer aquilo que eu amo observar: desfazer o impossível. um dia, sonhei que riobaldo e diadorim dançavam ao lado de uma fogueira. um dia, sonhei que uma floresta entrava por uma janela e depois o mar se juntava a ela. um dia, um dia infinito, sonhei com você. digo a você que algo que machuca é não poder, realmente, sonhar. e tudo impossível, três-tantos-impossível. tudo tão impossível, e mesmo assim eu corro para te alcançar, e você dá passadas largas e firmes se distanciado, apressado, e eu chamo o seu nome, e você se vira com os olhos imensos, imensos, a expressão de espanto no rosto, e eu ando até você e sussurro o que precisa ser sussurrado, e você me segura como se dessa vez fosse me deixar caminhar do seu lado, você me beija com as mãos no meu rosto, você repete em desespero palavras que já foram ditas, eu rio para você, com você, você, que me conta que ficou arrepiado, arrepiado dos pés a cabeça quando ouviu seu nome e se virou e se deparou comigo, você que me segura como se, e me solta como é, e eu digo: tchau!, e você diz, ainda embasbacado, tchau!, e agora sou eu quem volta, me afastando cada vez mais, e eu penso: e se na verdade, e se na verdade não fosse nem a escolha do poeta nem do amante, e se na verdade fosse simplesmente que na hora final não pudesse mesmo ser de outra forma, e eurídice tenha chamado por orfeu, e ele não poderia, realmente não poderia, ele tinha que saber exatamente o que estava perdendo, então não poderia não olhar?

primeiro eu quero falar de

de ontem para hoje, li o bluets da maggie nelson. enviei para a minha orientadora uma foto das três últimas proposições do livro -- i want y...