é ainda melhor do que
ou que
em parte porque
etc. etc. etc.
em novembro, conversando com minha orientadora, falei: eu não sou fumante! e expliquei para ela que toda vez que fumei um cigarro, foi por amor. agora: pareço louca? tenho vontade de me explicar diante do meu próprio tribunal, revelar a todos que sou perfeitamente funcional em todos os outros aspectos. faço tudo o que preciso fazer, às vezes aos trancos e barrancos, às vezes, naturalmente. a única força que me tira dos reinos de saturno é a venusiana. de volta ao cigarro como um gesto de amor. a primeira vez que fumei foi com meu amigo átila, acredito eu, no dragão do mar, estávamos esperando para ver algum show. ele tirou uma foto minha, eu segurava o cigarro com um sorriso amarelo no rosto. lembro que usava uma blusa azul estampada com o símbolo dos signos do zodíaco.
viajei para salvador em dois mil e catorze, para o aniversário de dezenove anos de bruna. estava apaixonada por ela na viagem. no terraço do prédio em que ela morava, fomos fumar. eu ainda não sabia tragar, ela tentava me ensinar. existem alguns meses no ano em que ficamos com a mesma idade, eu e ela. era um desses momentos: ela acabava de completar, eu estava me encaminhando para os vinte. achei que ela era a pessoa mais bonita do mundo naquele momento. em vários momentos, sigo achando isso. ela disse que eu ficava descolada fumando. devo ter rido nervosa. escrevi sobre essa cena, naquele mesmo ano, com um final diferente, em que, claro, nos beijávamos. não lembro se aprendi a lição ali ou só depois. tragar, não tragar, não fazia muita diferença àquela altura. o que importava era dividir.
me apaixonei pelo meu amigo andré vinicius, tabagista. fumava aos montes com ele na universidade, em quadras aleatórias da asa norte, nas raras festas que íamos. comprávamos um maço na rodoviária, encontrávamos um lugar na unb e dávamos conta de todo o maço no espaço da noite. eu estava apaixonada, queria acompanhá-lo. acho que chegava uma altura que eu nem tragava mais nada daquilo, apenas colocava a fumaça na boca e a soltava de imediato. continuava não me interessando por nada além de estragar meus dentes e olhar para quem fumava. depois desses momentos com meu amigo, viajei para fortaleza, período de férias, e andei fumando por lá, sozinha ou não sozinha, não importava muito.
fiquei um longo tempo sem fumar. meu último namorado começou a fumar tabaco. muito mais bonito e muito mais interessante: bolar um tabaquinho, o sabor, o cheiro que não impregnava. quando terminamos, segui fumando tabaco por um tempo. o intervalo era cada vez maior. às vezes, bastava dar um trago com um amigo, especialmente se esse amigo era lucas s., que sempre tinha um para dividir comigo nas mesas de bares em que dividimos tantas outras coisas.
então.
como escrever sobre a pessoa que é agora a pessoa amada, sem nomeá-la e sem chamá-la assim? meus textos ficam todos endereçados: usar você é muito mais fácil, afinal quando estamos apaixonados existe um você, esse outro a quem nossos pensamentos e sentimentos se destinam. minha amiga anna beatriz diz que a maior danação que alguém pode sofrer é deixar de ser visto pelos meus olhos e lido pelas minhas palavras. isso me comove, é claro, mesmo eu sabendo que não é verdade: ela mesma percorreu um caminho que demonstra que há coisas muito, muito piores. mas me comove que ela diga, e que isso me diga não que é bom me amar (embora uma frase como essa transmita isso), mas que é bom por mim ser amado. pode ser que não seja sempre bom, nem bom para todo mundo, claro. não tenho pretensões de universalidade. mas marco as palavras dela no meu coração: pode ser que, às vezes, seja terrível perder aquilo que eu tento fazer com mais dedicação.
mas ainda não foi perdido, não é? porque: então, você.
você me diz em uma ligação que estava gostando de fumar, fumar com as nossas amigas, mas que bom, bom mesmo era fumar um tabaquinho comigo. lembro daquele dia em dezembro, eu ensinando a você a simpatia da minha avó: tirar um cigarro do maço e fazer um desejo para ele, guardá-lo de volta com a ponta pra cima. o cigarro do desejo. era preciso fumar todos os outros antes e deixá-lo para o final. você faz seu desejo e o guarda outra vez. semanas depois, me diz que ele vai esperar meu retorno para que possamos fumá-lo juntos. coloco mais esse desejo na caixa daquilo que não vai se concretizar.
eu digo a você em um dia qualquer que só fumei por amor. você responde, olhos nos meus, sorrindo: eu também.
naquela noite – imediatamente antes do nosso querido desastre –, estamos conversando enquanto dividimos um tabaco, e você me diz, muito sério: qualquer coisa que você quiser me contar ou conversar comigo, você pode. eu rio do absurdo, sabendo das coisas que penso e que para mim são todas impossíveis. você me olha com a seriedade de sempre quando pergunto qualquer coisa?, e confirma que sim.
como é boa a ideia de que se possa falar, contar ou conversar qualquer coisa. falo disso em voz alta com a analista, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. uma coisa tão boba e tão boa e tão rara e tão dolorida: eu só sinto tanta falta de conversar.
nós dois ensandecidos de silêncio, combinamos um tabaquinho pras sete da manhã. com os pés em saturno, dividimos mais esse. foi nessa vez ou em outra que traguei da sua mão estendida para mim, sem precisar tomar o cigarro? deve ter sido em outra, com seu moletom servindo de proteção para mim contra o chão molhado. lembro das suas mãos, outro dia – você com elas no meu rosto, sorriso exasperado: deixa eu cuidar de tu. aquela vez que, depois de uma conversa séria e exaustiva, no dia seguinte estávamos outra vez frente a frente, como sempre dividindo os olhares, as palavras, o cigarro. você me pergunta: o que a gente está fazendo? e dou de ombros antes de responder – o que? o que a gente está fazendo? continuo procurando uma resposta que me satisfaça. por que nadar nesse mar?
passo os dias da minha ausência sem fumar tabaco. faço uma observação: fortaleza, a capital do cigarro branco. nas bancas, para comprar solto, só branco. todos os fumantes que encontro fumam apenas cigarro branco. chego em são paulo e um amigo dos meus amigos bola um tabaco na minha frente, é meu primeiro trago em quase cinquenta dias. não preciso de muito. lembro da sua voz na ligação: mas muito, muito bom mesmo é fumar com você. repito essas palavras na minha cabeça: mas muito, muito bom mesmo. etc. etc.
lamento estar monotemática. acontece. vivo outras coisas, me divirto. aos pulos no show do my chemical romance, a bateria de cemetery drive me atinge em cheio. em choque diante da minha música preferida deles sendo tocada na minha frente, sem nenhuma perspectiva de que fosse. lembro daquele dia no carro. lembro da sua mensagem sobre a música. balanço a cabeça e tento afastar sua imagem, é preciso viver esse momento, paro de pular e de cantar e com a mão no peito vou acompanhando gerard way cantar and the collision of your kiss that made it so hard. termino o show com um sorriso enorme no rosto e completamente suada. demoro horas para conseguir dormir, exausta e elétrica, pensando, lembrando, pensando.
amanhã volto para a cidade que não é a nossa, mas que é, também. meu amigo lucas s., se chegar a ler esse texto, há de me preparar um tabaquinho bolado na próxima vez que nos virmos. muito tempo atrás, escrevendo um treco que chamei de fenomenologia da mulher abandonada, disse que meu maior desejo era o de viver coisas bonitas. eu vivi e vivo coisas bonitas. o tempo de fumar um tabaquinho por amor, e olhar com amor para aquele com quem o divido. é bonito. sonhar com aquela última insanidade que você expressou: e se depois de tudo isso a gente ainda pudesse...? sonhar que vai acontecer. talvez na outra vida que você desejava – coisas de beleza. queria poder continuar escrevendo para sempre, até colocar mesmo cada instante em palavras. mas, como com o tabaquinho, e o amor, e as coisas de beleza, e os textos e as mãos dadas, sempre chega a hora de parar.