primeiro eu quero falar de amor

no telhado da escola, um gato preto. eu e ele passamos três minutos nos encarando. if you were a teacher i would fail your class. rio dos versos surgirem assim na minha mente. penso em pegar o celular para registrá-lo, ele vai embora. and i can wish all that i want, but it wont bring us together. repito para mim mesma meu novo mantra: deve haver uma lição nisso. coração partido, mãos vazias, pés confusos e lágrimas ardentes: deve haver uma lição nisso. certo? fico horas aos prantos, sentindo as metáforas mais banais: buraco se abrindo no peito, estômago se revirando, tudo cheio de nós. é tudo tão banal. seus gestos: tão comuns. as coisas que eu tive que ouvir: tão normais. continuo: por que nadar nesse mar? por que as coisas aconteceram assim? a resposta simples: 

(pergunto a você se em algum momento você realmente acreditou que a gente era possível. você diz: sim. pergunto a você se deixou de acreditar. você diz: a resposta simples, sim.)

porque sim. 

ou: porque eu quis. por que viver tudo isso? porque eu quis. só por isso? por que as pessoas (as pessoas, ou eu, ou as pessoas como eu) buscam um sentido e uma compreensão impossíveis de alcançar? na verdade, não adianta buscar um sentido, talvez apenas construi-lo. fabricar um elefante com seus parcos recursos. por que algo assim se pôs diante dos meus olhos, e assim eu quis, e assim aconteceu? sentido exterior, destino? essa é uma boa construção? é tudo só porque queremos o que queremos? eu quero e eu faço o que eu posso e o que eu consigo? vivendo o desejo mesmo sabendo que algo seria quebrado, partido, dilacerado depois? ou é porque eu acreditei, verdadeiramente acreditei, que poderia ser diferente? que eu poderia, mágica, transformar o impossível em possível?

você diz que eu não faço ideia do efeito que tenho em você. você acha? eu vejo que você colocou fogo em tudo. por fogo em tudo, inclusive em si. por que colocar fogo em tudo, fazer tudo ruir e ficar de pé, parado, congelado dentro das cinzas? por que não fazê-lo, também? por que não procurar dentro da fuligem tudo aquilo que ainda restou, e tentar preservar? o que me dói é que eu entendo os dois caminhos, mas só vejo sentido em um e você só vê sentido no outro. nós somos parecidos, e também não somos. o que fazer com a vida virada do avesso? o que fazer com o fogo? lembro do cheiro de queimado quando eu cruzava de ônibus uma curta distância, pensando em distâncias ainda maiores. era por isso? a fumaça que eu sentia, mas não via, anunciava você e sua destruição? como eu não saberia o efeito que tenho em você, se você incendiou sua vida inteira em troca de trinta dias? no fundo, sabemos: eu não sou a razão de você ter feito tudo isso. mas eu sou o fósforo. who am i to ask for more, more, more? a professora que eu amo escuta meu lamento de ter perdido um amigo e me diz que eu ganhei mais do que o que eu perdi, mas que a questão era que eu queria tudo. muitos anos atrás, tentei traduzir um poema da anne carson: uma clínica para pessoas que querem tudo, o que faço com os meus olhos? 

as amizades dizem: porque você tem o coração aberto. porque é importante isso, ter movimento, as coisas acontecem porque elas precisam se mover. porque talvez fosse o que era necessário para que outras coisas pudessem ser possíveis. porque você precisa escrever, essas coisas acontecem porque você precisa escrever. e eu continuo, mesmo diante de todas as respostas levantadas: por quê? por que tinha que ser assim e não de qualquer outro jeito? you told me this gets harder, well, it did. digo a mim mesma que consigo ser funcional, que consigo viver, fazer as coisas que tenho que fazer. meu quarto está uma bagunça, vou jogando as coisas na mesa. não consegui tirar roupa nenhuma do varal. consigo fazer aquilo que sei que preciso fazer para os outros: lavar a louça, certo, isso é possível. terminar de ler um livro porque me comprometi a mediar um clube de leitura. organizar um plano de aula, afinal, esse é meu trabalho, e é um trabalho que faz sentido porque eu me importo com ele. entro na água quente do banho e fico muito além da conta. parece impossível sair. parece impossível me mover. 

ficamos horas juntos, imóveis, porque não temos futuro, apenas o presente. como no avalovara, uma tapeçaria medieval: tudo é presentificado, está tudo acontecendo sempre, o tempo é uma espiral na qual você pode saltar de um ponto para o outro como o pássaro do meu contentamento, então eu digo: olha ali você com a blusa amarela do corinthians, tá vendo? e respondo que você não vê, seus olhos não veem essas coisas; e você diz, algo ressabiado, algo debochado: eu sou careta demais, normal demais. eu concordo, mas não é verdade, mas é verdade, também. tudo é e não é, como diria o riobaldo. choro deitada no seu colo, você chora enquanto me segura. você me diz que te dói que eu te faça tão bem, e que em retorno, você me faça sofrer. não consigo responder nada, porque não há nada que eu possa dizer. quero repetir as palavras que você mais odeia: vai passar. vai passar. que bobagem, não é? then you'll discover that it's never over.

(você aponta para meu braço: não acredito que vi esse pássaro. lembro da ligação, você o descrevendo para mim e meu coração acelerado: só pode ser um alma-de-gato! nossa mútua alegria quando você confirma que sim, é sim, o meu pássaro, o meu pássaro que carrega em si o nome do seu bicho mais amado. depois, olhando para a minha boca, o talhe no lábio feito por você uma vida atrás, ainda fundo, ainda marcado, mais marcado que todas as outras ranhuras ressecadas: por que não sara?, pergunta, consternado, enfeitiçado. lágrimas nos olhos, eu digo: eu não sei, eu não sei, eu não sei por que não sara. tudo deve ser um sinal quando se deseja o suficiente.) 

houve um tempo em que acreditei viver com uma assombração. para onde eu me voltava, com o canto do olho, podia pressenti-la, observar seu vulto, saber que ela estava lá. fiquei assombrada por meses. hoje, acho graça. não vivo com uma assombração, mas convoco um fantasma, um espectro, a sua presença. não preciso fechar os olhos, não preciso olhar de esguelha, sou eu quem chama. passando por tantos dias longe e sabendo que você deveria estar lá: dentro da água, ou num bar, ou numa rede, ou no show, no aniversário de noventa anos do meu avô, no café da manhã, no horário do almoço, ou separando turmas, ou ouvindo música, ou aqui e agora. você não é uma assombração. se formos pensar bem, talvez seja o contrário. você me diz: você não quer que eu te esqueça. eu digo: me esquece amanhã.

(brinco com meus amigos: minha única patologia é o amor romântico. de resto, funciono perfeitamente.)

fumamos nossos últimos tabaquinhos, você fala sobre como eu digo não com tanta facilidade para você, que faz tudo que eu digo para a gente fazer. e a conclusão disso é óbvia e evidente. eu carrego comigo o maior dos sins, e te dou pequenos nãos onde eles podem ser dados sem muito dano. você concorda com tudo que eu sugiro, enquanto me oferta na jangada da sua mão o grande não.

por que viver uma dor certa? li em algum lugar que o último gesto do amor é sempre a perda. perde-se o amante para a vida ou para a morte. então sempre se vive uma dor certa. por que me debruçar tanto sobre essa pergunta, se é apenas o que todo mundo faz, viver dores certas? vai doer, e vamos viver. vai doer enquanto vivemos, vai doer depois, durante, antes, em algum momento há de doer, e vamos viver, ainda assim vamos escolher viver porque basta, como diz a inominada para o abel, um segundo que ilumine tudo, e por esse segundo você escolhe continuar. meu problema é não saber soltar. meu problema é que eu queria mais. meu problema é que agora é preciso perder algo que brilha, que está vivo, que se move, que respira, que tem calor. lembro de antes, lembra que havia um antes?, quando você me olhava e eu pensava e dizia para minhas amigas: ele me olha com muito amor, é impressionante, mas eu sou doida; e aí descobrir que eu não era doida, e que era amor, e que agora, depois, você ainda me olha assim, feito miragem ou milagre, e é preciso que seja memória.

(o tempo todo que estive ao seu lado, o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo, tive um único mantra, o mais simples, o mais tolo, o mais impossível, o que menos dependia de mim e de qualquer uma das minhas ações, o que precisava mesmo de fé, de crença, de olhos fechados, o tempo todo, colocando as mãos sobre seus olhos ou a boca na sua, rindo enquanto tomávamos café da manhã, fazendo alguma piada diante do seu rosto miserável para que eu pudesse ouvir um segundo da sua risada, a todo instante, em cada minuto, em cada segundo do seu lado, o tempo todo, o pensamento que englobava tudo, que abraçava tudo, que ecoava sem parar na minha mente, a maior das dores, a maior das tolices, a pior das coisas, que é pedir, pedir, pedir, pedir, de olhos fechados, e saber que ninguém vai atender, mas pedir mesmo assim: por favor, mude de ideia.)

fui uma criança da mitologia grega. era uma obsessão muito séria, levada seriamente pelos meus pais. eu não sou uma pessoa séria, embora eu leve tudo a sério. orfeu e eurídice me comoviam, mas não me interessavam muito; algo engraçado de se dizer, quando penso que tanto do que eu gosto está nos dois. eu gosto de amores impossíveis. eu era uma adolescente que escrevia tragédias amorosas. por que nadar nesse mar? porque era o meu mar, e também o seu? o mar revolto que nos ensinou a estar na água. posso repetir: eu queria ser mágica. queria ser uma narradora que cria, e não que vê. eu queria desfazer o que fiz na adolescência, desfazer aquilo que eu amo observar: desfazer o impossível. um dia, sonhei que riobaldo e diadorim dançavam ao lado de uma fogueira. um dia, sonhei que uma floresta entrava por uma janela e depois o mar se juntava a ela. um dia, um dia infinito, sonhei com você. digo a você que algo que machuca é não poder, realmente, sonhar. e tudo impossível, três-tantos-impossível. tudo tão impossível, e mesmo assim eu corro para te alcançar, e você dá passadas largas e firmes se distanciado, apressado, e eu chamo o seu nome, e você se vira com os olhos imensos, imensos, a expressão de espanto no rosto, e eu ando até você e sussurro o que precisa ser sussurrado, e você me segura como se dessa vez fosse me deixar caminhar do seu lado, você me beija com as mãos no meu rosto, você repete em desespero palavras que já foram ditas, eu rio para você, com você, você, que me conta que ficou arrepiado, arrepiado dos pés a cabeça quando ouviu seu nome e se virou e se deparou comigo, você que me segura como se, e me solta como é, e eu digo: tchau!, e você diz, ainda embasbacado, tchau!, e agora sou eu quem volta, me afastando cada vez mais, e eu penso: e se na verdade, e se na verdade não fosse nem a escolha do poeta nem do amante, e se na verdade fosse simplesmente que na hora final não pudesse mesmo ser de outra forma, e eurídice tenha chamado por orfeu, e ele não poderia, realmente não poderia, ele tinha que saber exatamente o que estava perdendo, então não poderia não olhar?

fumar um tabaquinho com você

é ainda melhor do que
ou que 
em parte porque
etc. etc. etc.

em novembro, conversando com minha orientadora, falei: eu não sou fumante! e expliquei para ela que toda vez que fumei um cigarro, foi por amor. agora: pareço louca? tenho vontade de me explicar diante do meu próprio tribunal, revelar a todos que sou perfeitamente funcional em todos os outros aspectos. faço tudo o que preciso fazer, às vezes aos trancos e barrancos, às vezes, naturalmente. a única força que me tira dos reinos de saturno é a venusiana. de volta ao cigarro como um gesto de amor. a primeira vez que fumei foi com meu amigo átila, acredito eu, no dragão do mar, estávamos esperando para ver algum show. ele tirou uma foto minha, eu segurava o cigarro com um sorriso amarelo no rosto. lembro que usava uma blusa azul estampada com o símbolo dos signos do zodíaco. 

viajei para salvador em dois mil e catorze, para o aniversário de dezenove anos de bruna. estava apaixonada por ela na viagem. no terraço do prédio em que ela morava, fomos fumar. eu ainda não sabia tragar, ela tentava me ensinar. existem alguns meses no ano em que ficamos com a mesma idade, eu e ela. era um desses momentos: ela acabava de completar, eu estava me encaminhando para os vinte. achei que ela era a pessoa mais bonita do mundo naquele momento. em vários momentos, sigo achando isso. ela disse que eu ficava descolada fumando. devo ter rido nervosa. escrevi sobre essa cena, naquele mesmo ano, com um final diferente, em que, claro, nos beijávamos. não lembro se aprendi a lição ali ou só depois. tragar, não tragar, não fazia muita diferença àquela altura. o que importava era dividir. 

me apaixonei pelo meu amigo andré vinicius, tabagista. fumava aos montes com ele na universidade, em quadras aleatórias da asa norte, nas raras festas que íamos. comprávamos um maço na rodoviária, encontrávamos um lugar na unb e dávamos conta de todo o maço no espaço da noite. eu estava apaixonada, queria acompanhá-lo. acho que chegava uma altura que eu nem tragava mais nada daquilo, apenas colocava a fumaça na boca e a soltava de imediato. continuava não me interessando por nada além de estragar meus dentes e olhar para quem fumava. depois desses momentos com meu amigo, viajei para fortaleza, período de férias, e andei fumando por lá, sozinha ou não sozinha, não importava muito. 

fiquei um longo tempo sem fumar. meu último namorado começou a fumar tabaco. muito mais bonito e muito mais interessante: bolar um tabaquinho, o sabor, o cheiro que não impregnava. quando terminamos, segui fumando tabaco por um tempo. o intervalo era cada vez maior. às vezes, bastava dar um trago com um amigo, especialmente se esse amigo era lucas s., que sempre tinha um para dividir comigo nas mesas de bares em que dividimos tantas outras coisas. 

então.

como escrever sobre a pessoa que é agora a pessoa amada, sem nomeá-la e sem chamá-la assim? meus textos ficam todos endereçados: usar você é muito mais fácil, afinal quando estamos apaixonados existe um você, esse outro a quem nossos pensamentos e sentimentos se destinam. minha amiga anna beatriz diz que a maior danação que alguém pode sofrer é deixar de ser visto pelos meus olhos e lido pelas minhas palavras. isso me comove, é claro, mesmo eu sabendo que não é verdade: ela mesma percorreu um caminho que demonstra que há coisas muito, muito piores. mas me comove que ela diga, e que isso me diga não que é bom me amar (embora uma frase como essa transmita isso), mas que é bom por mim ser amado. pode ser que não seja sempre bom, nem bom para todo mundo, claro. não tenho pretensões de universalidade. mas marco as palavras dela no meu coração: pode ser que, às vezes, seja terrível perder aquilo que eu tento fazer com mais dedicação. 

mas ainda não foi perdido, não é? porque: então, você.

você me diz em uma ligação que estava gostando de fumar, fumar com as nossas amigas, mas que bom, bom mesmo era fumar um tabaquinho comigo. lembro daquele dia em dezembro, eu ensinando a você a simpatia da minha avó: tirar um cigarro do maço e fazer um desejo para ele, guardá-lo de volta com a ponta pra cima. o cigarro do desejo. era preciso fumar todos os outros antes e deixá-lo para o final. você faz seu desejo e o guarda outra vez. semanas depois, me diz que ele vai esperar meu retorno para que possamos fumá-lo juntos. coloco mais esse desejo na caixa daquilo que não vai se concretizar. 

eu digo a você em um dia qualquer que só fumei por amor. você responde, olhos nos meus, sorrindo: eu também.

naquela noite – imediatamente antes do nosso querido desastre –, estamos conversando enquanto dividimos um tabaco, e você me diz, muito sério: qualquer coisa que você quiser me contar ou conversar comigo, você pode. eu rio do absurdo, sabendo das coisas que penso e que para mim são todas impossíveis. você me olha com a seriedade de sempre quando pergunto qualquer coisa?, e confirma que sim.

como é boa a ideia de que se possa falar, contar ou conversar qualquer coisa. falo disso em voz alta com a analista, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. uma coisa tão boba e tão boa e tão rara e tão dolorida: eu só sinto tanta falta de conversar. 

nós dois ensandecidos de silêncio, combinamos um tabaquinho pras sete da manhã. com os pés em saturno, dividimos mais esse. foi nessa vez ou em outra que traguei da sua mão estendida para mim, sem precisar tomar o cigarro? deve ter sido em outra, com seu moletom servindo de proteção para mim contra o chão molhado. lembro das suas mãos, outro dia – você com elas no meu rosto, sorriso exasperado: deixa eu cuidar de tu. aquela vez que, depois de uma conversa séria e exaustiva, no dia seguinte estávamos outra vez frente a frente, como sempre dividindo os olhares, as palavras, o cigarro. você me pergunta: o que a gente está fazendo? e dou de ombros antes de responder – o que? o que a gente está fazendo? continuo procurando uma resposta que me satisfaça. por que nadar nesse mar?

passo os dias da minha ausência sem fumar tabaco. faço uma observação: fortaleza, a capital do cigarro branco. nas bancas, para comprar solto, só branco. todos os fumantes que encontro fumam apenas cigarro branco. chego em são paulo e um amigo dos meus amigos bola um tabaco na minha frente, é meu primeiro trago em quase cinquenta dias. não preciso de muito. lembro da sua voz na ligação: mas muito, muito bom mesmo é fumar com você. repito essas palavras na minha cabeça: mas muito, muito bom mesmo. etc. etc.

lamento estar monotemática. acontece. vivo outras coisas, me divirto. aos pulos no show do my chemical romance, a bateria de cemetery drive me atinge em cheio. em choque diante da minha música preferida deles sendo tocada na minha frente, sem nenhuma perspectiva de que fosse. lembro daquele dia no carro. lembro da sua mensagem sobre a música. balanço a cabeça e tento afastar sua imagem, é preciso viver esse momento, paro de pular e de cantar e com a mão no peito vou acompanhando gerard way cantar and the collision of your kiss that made it so hard. termino o show com um sorriso enorme no rosto e completamente suada. demoro horas para conseguir dormir, exausta e elétrica, pensando, lembrando, pensando. 

amanhã volto para a cidade que não é a nossa, mas que é, também. meu amigo lucas s., se chegar a ler esse texto, há de me preparar um tabaquinho bolado na próxima vez que nos virmos. muito tempo atrás, escrevendo um treco que chamei de fenomenologia da mulher abandonada, disse que meu maior desejo era o de viver coisas bonitas. eu vivi e vivo coisas bonitas. o tempo de fumar um tabaquinho por amor, e olhar com amor para aquele com quem o divido. é bonito. sonhar com aquela última insanidade que você expressou: e se depois de tudo isso a gente ainda pudesse...? sonhar que vai acontecer. talvez na outra vida que você desejava – coisas de beleza. queria poder continuar escrevendo para sempre, até colocar mesmo cada instante em palavras. mas, como com o tabaquinho, e o amor, e as coisas de beleza, e os textos e as mãos dadas, sempre chega a hora de parar. 

atravessando a barão de aratanha

seria mais ou menos assim:

em um dia, saindo da escola, atravessando debaixo do sol quente as ruas para almoçar na tua casa. no meu mp3 vermelho, alguma música que eu gostaria de te mostrar. tinha que ser depois da aula, porque éramos de turmas diferentes (, mas aqui é o reino da imaginação, então não vamos nos afastar tanto, tudo bem?). no meu caderno, inúmeras declarações de amor. sempre fui besta, boba e tola. repito tanto o que digo porque eu mesma sou uma repetição. mas voltemos, por favor, só um instantinho mais. almoçar na tua casa. depois o que? claro, tu tinha que me mostrar algo no computador. qualquer coisa. uma cena de série. um pedaço de filme. minhas mãos suando. a gente e uma grande vontade de mostrar algo. mostrar uma coisa interessante. mostrar uma coisa que fosse interessante para nós, e que gostaríamos que fosse interessante também para o outro. talvez fosse vendo teu filme. talvez fosse ouvindo no mesmo fone a minha música. talvez fosse atravessando a barão de aratanha, indo para a sua casa, indo em algum mercantil perto comprar merenda, indo pra qualquer lugar. talvez fosse chegando na mundica paula, por que não? talvez em uma pracinha, com uma nossa senhora presa por trás de um vidro. talvez na hora do intervalo. sempre o desejo de se encontrar durante o intervalo.

eu sei que as coisas vão passar muito, muito antes do padre anunciar que elas iriam. desde criança, convivi com uma grande saudade de tudo. agora, adulta, a lição parece ser outra: as coisas passando, eu quero é passar com elas. mas não passo. eu fico nelas. vai passar, repito para mim mesma, incontáveis vezes, porque eu sei que vai, porque as coisas passam, porque muita coisa já passou. penso em todas as coisas que permanecem, e sei que elas permanecem porque são presentes, porque se renovam, porque se esticam no tempo. minha infância com meus amigos do colégio passou. eles ainda são meus amigos. esse amor não vai embora nunca, e sei que mesmo se um dia qualquer um deles se afastasse para onde eu não pudesse mais nem seguir nem olhar, esse amor permaneceria. mas existem tantas outras coisas no mundo que se vão. como eu preciso aprender algo que eu já sei? 

você disse que torcia para existir outra vida, em que você pudesse fazer a coisa certa. meu problema é levar a sério demais tudo. bobagem minha: só uma pessoa muito tola confiaria naquilo que nasce da falta de coerência e da irracionalidade.  

talvez pudesse começar, realmente, assim:

duas pessoas combinam de se encontrar em um bar. chove muito a noite inteira. elas descobrem que são da mesma cidade. elas se maravilham com essa informação: sempre bom encontrar conterrâneos em terras estrangeiras. mas, por qualquer motivo, parece melhor ainda. parece um segredo compartilhado. você se lembra, descendo a barão de studart, quando aparece o mar? não, não, mas de toda forma é a melhor parte de uma cidade de praia, a qualquer instante poder se surpreender com o mar. meus pais tinham uma brincadeira quando íamos para a praia, eu morava no montese, pois bem, a viagem naquele tempo parecia longuíssima, eu ia deitada no banco de trás, jamais permitiria uma criança fazer isso hoje em dia, claro, mas ia assim, e a brincadeira, vencia quem dissesse: eu vi o mar primeiro. eles me deixavam ganhar muitas vezes, minha mãe avisando que olha, já estamos perto da praia, só para eu me erguer e vencer: eu vi o mar primeiro. uma boa brincadeira de infância. continua chovendo. mais uma rodada de bebida. ficam rindo, rindo, rindo juntas. qualquer pessoa que passasse saberia o que estava acontecendo. 

ou estamos perto demais? talvez fosse melhor se:

atravessando a barão de aratanha, tomo um susto com um carro. tu estende a mão para a minha, na adolescência sempre levei carão dos meus amigos por aderir muito à filosofia do ele não é maluco, ele está me vendo. rimos do outro lado da calçada. no meu caderno, um monte de fanfics em que reproduzo a nossa relação com o naruto e o gaara. sentamos no chão do seu quarto. é preciso voltar tanto assim no tempo para que dê certo? rio da minha própria imaginação, querendo resetar uma vida inteira, como se isso fosse solucionar algo. então somos adolescentes, ao mesmo tempo, já uma falha na estrutura, uma impossibilidade, mas somos, e sentamos no chão do seu quarto. sinto que meu coração está batendo dentro da boca, preciso ficar de dentes bem cerrados para que ele não escape. tu quer me mostrar no youtube algum vídeo de melhores momentos da copa de noventa e oito ou coisa parecida. concordo porque é mais fácil assim, apenas balançando a cabeça sem dizer palavra alguma. imenso silêncio. olhamos um para o outro. nessa altura, teus olhos ainda não são tão cansados. nos olhamos, nos olhamos. até.

não queria ter que ir tão longe, desfazer tantos fios. isso é apenas mais um exercício da imaginação que não cansa de fazer piruetas, aprender novos movimentos, essas coisas de atleta. queria que pudesse ser mais perto, e ainda ser certo. com a diferença no tempo e todo o resto: você começando a trabalhar enquanto meus cadernos ainda eram cheios de fanfics. o tempo passando e cada um caminhando suas passadas, até o encontro. continuamos com a alegria de termos aprendido a nadar no mesmo mar revolto. não tem como consertar o tempo, por mais que eu queira. meu problema é continuar achando que tudo é possível. ou melhor, tudo é possível, inclusive, evidentemente, o que eu não gostaria que fosse. é possível, muito mais que possível, um futuro que não obedece aos meus delírios imaginativos. 

fico tentando resgatar tudo. por que tanto medo de perder aquilo que eu sei que devo perder? que eu sei que vai passar? lembro da respiração no meu rosto. não adianta. lembro de palavras nascidas da confusão: não querer que passe, não querer que cesse um sentimento tão bonito, parecer errado, parecer impossível. palavras, palavras. por que eu levo tudo tão a sério? respondo miudamente: porque era sério. porque era verdade, mesmo que só pudesse ser verdade assim, nas frestas. porque, porque. não adianta. 

lembro de quando vi um beija-flor que parecia estar cortejando uma pedra, até eu notar que das ranhuras da pedra nasciam flores muito pequenas, de caules muito, muito, muito finos. era daquelas florinhas que sumiam na distância que o beija-flor tirava seu néctar. 

não adianta imaginar, como não adianta desejar. as coisas não são de outra forma, elas são exatamente como são. tudo aconteceu no tempo que aconteceu. sem adolescentes, sem jovens, sem encontros na universidade. posso torcer para algum dia naquele mar revolto, eu e você lá, alheios um ao outro. eu e você nos esbarrando no centro da cidade. vivendo uma vida inteira alheios um ao outro. tendo que retornar a uma vida inteira alheios um ao outro. escrevo, escrevo, escrevo, tentando tirar algo de dentro de mim, tentando encontrar algo dentro de mim, tentando fazer sentido daquilo que não faz sentido algum. tentando entender meus motivos, imaginando entender os seus. por que viver algo assim? porque sim? resposta insuficiente. quero enfiar o dedo na minha ferida: por que nadar nesse mar? 

me pergunto se ainda vou ficar muito tempo assim. me pergunto se preciso só gastar, gastar as palavras e as sensações. me pergunto se deveria escrever tudo aquilo que eu lembro, tudo, escrever como se escreve um romance, mas eu nunca escrevo romances, eu escrevo apenas as minhas bobagens, sonhos, cartas, postagens de blogs, eternamente presa em mim mesma e no meu diário. 

termino com uma cena:

estar dentro de um uber e atravessar de fato a barão de aratanha, e sentir um aperto imenso no peito lendo a placa azul, e fechar os olhos por uns instantes e imaginar que no passado essa travessia pudesse ser feita de outra maneira. mas não adianta. tento consertar o tempo do jeito mais tolo possível. não existe para trás. tudo que é possível de fazer está no minuto em diante. não é assim que acerto o destino. o tempo esteve errado desde o começo. para acertá-lo, precisaríamos de muito mais que minhas duas mãos e o sentimento do mundo. para acertar esse tempo, só a quatro mãos. 

pelo caminho mais longo

novamente, sonho com o mar. acho engraçado esse tanto de sonhos com o mar, desde quando longe dele. o mar pela janela. o mar e você na areia. o mar cheio de pedregulhos. uma casa dentro do mar, você se lembra? o mar, o mar. acordo por uns segundos confusa, a cabeça doendo na madrugada. quero anotar no bloco de notas o sonho, desisto, vejo a hora, tenho vontade de rir: um dia atrás, nessa mesma alta hora da madrugada, sua voz ainda era possível. me viro de bruços e enfio a cara no travesseiro. é preciso reaprender a dormir. 

tenho vontade de escrever tudo com detalhes. eu brincava: queria ser a annie ernaux cearense. o maior motivo dessa brincadeira, percebo agora, é que eu não tenho, claro, a distinção dela. muito menos discreta, muito mais direta, sempre muito centrada em mim mesma. quero registrar tudo, todos os lugares, os bares, os cafés, as praças, cada um dos beijos, cada uma das lágrimas. alguém ainda aguenta ler histórias de amor hoje? 

se me dessem um calendário que fosse do dia do meu aniversário até o dia vinte e dois de dezembro do ano passado, eu poderia apontar para cada quadradinho de dia e falar do que aconteceu. essa foi a madrugada depois de um show que não fui, e nessa hora o ponto de táxi ao lado do carrefour recebia você, bebendo uma cerveja e me enviando uma mensagem de voz. esse foi o dia em que cantamos mr. brightside juntos. aqui, a gente passando raiva juntos. aqui, a gente dividindo um tabaquinho depois de passar raiva juntos. você me conta que quando nos chamei para ir embora, você queria dizer não. você me conta isso no caminho mais longo. fico feliz que ainda haja algo para se descobrir, ainda que nos instantes finais. se pulo para outro dia, nossos pés em saturno, sua boca na minha. se venho para essa semana, você louco, risonho lendo a lista no meu bloco de notas, encantado com tudo aquilo. se ponho meu dedo em uma segunda-feira de dezembro, amanheço com você na minha casa, seus passos decidindo te levar até mim. aqui ou ali, nesse dia ou em outro: nós ouvindo música, conversando sobre filmes de terror, falando historinhas de vida. o corinthians aparece agora como uma coisa brilhante, importante, destacada das demais. você me revela, maravilhado: nos apaixonamos sem beijar na boca!, e eu rio, rio, minutos a fio rindo dessa informação. 

você me disse que queria viver no meu mundo, uma vida atrás. você se despede perguntando se eu consegui também viver um pouco no seu mundo. digo que sim, mas horas depois penso que essa não é a verdade. seria impossível viver no seu mundo. seria preciso que você cruzasse uma fronteira, ou que caminhássemos juntos para um outro mundo, nem meu nem seu, ainda a ser encontrado por nós. lamento o tanto de medo que impede esses passos. continuo no meu mundo, você no seu. 

penso naqueles momentos de absoluto silêncio, olhos nos olhos. uma vez, você disse: qualquer pessoa que passa por nós sabe o que está acontecendo. 

tenho um problema com o amor. quer dizer, com o amor romântico. quer dizer, com a paixão. tenho um problema porque esqueço que ela é (para mim? para todos? para alguns?) um estado totalitário. a paixão impõe uma nova forma de pensar. diante dela, é preciso aprender a ser dividido: uma parte de mim está vivendo o que eu preciso viver, minha vida cotidiana, meus afazeres e deveres, tudo aquilo que sustenta minha normalidade. uma parte de mim não se importa com nada disso, não quer saber de nada disso, quer apenas o que quer, sonhar com o mar entrando pela janela junto de uma floresta, janelas abertas, olhos cansados. 

annie ernaux fala sobre estar entre a memória e loucura. minha amiga dá uma risada nervosa e diz que estamos todos loucos. eu devo estar. cansada da loucura, tento celebrar a memória. uma noite em uma mesa de pracinha, você pedindo o isqueiro que estava na minha mão e dizendo: deixa eu acender, enquanto levava as mãos para próximo da minha boca. outra noite, na mesma mesa, suas mãos sobre as minhas pernas. tenho vontade de escrever tudo para que daqui a muito tempo seja possível evocar o que agora só existe na lembrança com força de verdade. é só lembrança, mas já foi real: ser tão cedo de manhã e já estarmos nos braços um do outro. ser tão tarde da noite e ainda estarmos buscando os braços um do outro. dentro do carro (sobre o trevo, a cem por hora, ó meu amor), esfregando nossas cabeças juntas como bichos dando carinho. e quanta coisa já devo ter esquecido. quanta coisa ainda vou esquecer.

posso recordar de muito do que foi: o abraço, o beijo, o cheiro, a sensação do rosto nas mãos, cabeça no ombro, mordidas no pulso. fico triste de esquecer muito do que foi dito, tanta coisa que foi dita. deveria ter escrito um diário, anotado cada uma das palavras. sempre me importei muito com elas, e elas são as primeiras a partir. fecho os olhos. a sensação de estar dentro do mar em sonho e dentro do mar verdadeiro se chocam em mim. minha certeza se chocando com a sua incerteza. você, personagem trágico da história que escolheu escrever. meu desejo de preservar a beleza me faz encerrar a narrativa, desejando que ela pudesse continuar.

no final de outubro de vinte e três, ouvi da analista que eu tinha muita dificuldade de soltar das coisas. também já esqueci de muito do que ela me disse, mas não disso. toda vez que não consigo deixar algo, olho para as minhas mãos e sussurro: soltem. soltem. me deixem soltar. elas são desobedientes, hesitantes; muitas vezes, mais fortes do que aquilo que eu digo entredentes. um estudo sobre mãos talvez se torne um pouco profético. é demais acreditar nesses pontos do destino, enquanto ainda peço que soltem, deixem ir? 

sinto que poderia por muito tempo continuar. não, não continuar. inaugurar algo novo e estar com esse algo até ele se tornar antigo. sinto que poderia carregar com você o que aparecesse. sinto um monte de coisas que são sentidas em vão. claro, essa frase é injusta. não se sente nada em vão. tomo uma decisão. escolher algo é tentar dar norte ao tempo que vai passar, ainda que não possamos prever o tempo. eu digo as coisas que sinto, mas será que as sentiria mesmo? será que seria mesmo assim? será que seria melhor ou pior do que aquilo que eu imagino? vítima da imaginação. vítimas da imaginação. 

quero guardar na memória você sussurrando meu nome. como toda besta romântica, decreto para mim mesma que era assim, nesse tom de voz, dessa maneira, com essa inflexão que meu nome deveria ser dito, como se você revelasse a mim um nome secreto por detrás do meu nome. você diz que ama a minha voz. você diz que a doçura e a delicadeza dela embalam você, hipnotizado. minha voz, uma voz tão comum. mas eu entendo: é a voz-para-você, também. não a voz de professora, nem de mesa de bar, nem de aluna da universidade. outra voz, um segredo de travesseiro. de minha parte, você já sabe: a sua voz foi alegria para meu coração, desde antes. ou: porque sua voz foi alegria para o meu coração é que precisamos definir que há um antes. 

de olhos fechados: o mar, a sensação do mar. demoro a conseguir dormir outra vez. me mexo na cama, procurando o que nunca mais vou encontrar. na penumbra do quarto, abro os olhos e ponho as mãos diante do rosto. quase consigo ver. quase consigo ver. soltem, eu peço, e elas deixam ir. 

as formas naturais

vivo num mundo em que o amor é possível.

estou lavando a louça, esse pensamento passa pela água nas minhas mãos. como sempre acontece, fico repetindo, repetindo. um mundo em que o amor é possível. venho escrever. tenho algo infantil: me importo com aniversários, muito. os aniversários dos meus amigos são datas sagradas, dias de devoção, o seu dia, o dia que poderia ser um dia qualquer, mas que foi abençoado por sua presença. é engraçado digitar tudo isso sabendo que ontem foi meu aniversário, claro. isso tudo é aplicável a mim? não, mas sim: também gosto do meu aniversário, não por qualquer sacralidade que sinta em relação ao meu dia, mas porque sei que é o dia em que o amor é possível. muitas palavras. muitos abraços. duas de minhas coisas preferidas. 

outra brincadeira. todos os dias no mundo o amor é possível.

minha amiga da escola me fez um bolo de aniversário. ela diz: eu trato todos os meus amigos com dedicação, morgana! você não é especial!, e eu rio, maravilhada. que bom que eu não sou especial, que bom que todos os amigos são tratados assim e que eu posso compartilhar sua generosidade. imagino sua cozinha, ela na frente da bancada, mãozinhas minúsculas, cansada, claro, estamos no quarto bimestre, ela está sozinha na coordenação, a gestão da escola deixa a desejar, os alunos são malucos, os professores, mais. então é terça à noite, e ela está cansada, com mãozinhas pequenas fazendo uma cobertura, fazendo um creme, fazendo um bolo inteiro, para o meu aniversário, a ser passado de manhã e de tarde na escola. de manhã, ela diz: ih, esqueci que era hoje, e eu respondo: é mentira sua. sem nem saber que havia um bolo feito por mãozinhas exaustas do trabalho, de noite, vencendo todo o cansaço. é um lindo bolo, os professores comem à beça, eu fico feliz e orgulhosa pensando vejam só vocês, e toda essa maravilha foi feita em meu favor, todo o carinho em fazer algo especial para alguém é meu.

no comecinho da manhã, os alunos da turma que sou conselheira me dão bom dia. respondo e vou para a minha sala, então escuto seus passos, eles estão correndo em minha direção gritando professora!, professora!, e então são uns dez braços se pondo sobre mim, sou puxada para dentro de um abraço imenso. 

recebo mensagens de madrugada, de manhã. minha amiga bruxa diz que chorou vendo nossas fotinhas juntas. minha amiga artista relembra alguns desenhos que já fez de mim ao longo de todos esses anos. minha amiga de infância diz: você é o amor da minha vida. meu amigo de infância diz que ama me ouvir falar de o que quer que seja. minha amiga de infância diz: que bom que a gente vai se amar para sempre. meu amigo (me falta uma caracterização precisa, tenho vontade de dizer 'dançarino' pelo jeito que ele existe no mundo) reabilita a música deusa do amor aos meus ouvidos. minhas amigas dizem. meus amigos dizem. me encho dessas palavrinhas todas, elas inundam meu coração. inundar é uma boa palavra? irrigam? molham a terra. nutrem a terra. sinto amor e não tenho medo. 

entro na sala de aula pronta para ceder meus dois horários ao meu amigo da escola, e sou tomada pelo grito dos alunos, surpresa, um bolo, docinhos, salgadinhos. eles riem e batem palma e eu me posiciono confusamente na frente da mesa. no dia anterior, o bolo feito pelas pequeninas mãos da minha amiga foi carregado sala a dentro pelo meu amigo da escola, sou surpreendida ali também, boquiaberta vou embaraçada tentar apagar as velas, ele se inclina em minha direção e diz: tão fofinha você sem graça. fico menos sem graça com meus alunos, ali já estou acostumada a estar diante do quadro. depois, meu amigo e nossas crianças vão me contar, mais chocados que eu, que quase flagrei a surpresa várias vezes. eles quase não acreditam quando eu digo que não sabia de nada, não notei nada, não reparei em nada, não desconfiei de nada. que eu não poderia imaginar isso, que eu não sabia. me divirto com meu próprio alheamento, me divirto porque é uma surpresa de verdade, como foi a do dia anterior; porque é uma surpresa de verdade que esses adolescentes que me exaurem e que me comovem igualmente também (eu posso dizer? eu posso dizer?) gostem (!) de mim. meu amigo da escola me olha com seus olhinhos doces, cansados, bonitos, adoráveis, tenho vontade de dizer a ele como seu olhar carrega sempre um monte de coisas, tenho eu vontade de dizer um monte de coisas, mas digo: você é um mentiroso!, porque fui perfeitamente enganada, e os alunos conversam entre si e com a gente, e me dizem que queriam fazer algo para mim fazia um tempão, e que surgiu a oportunidade com o aniversário. fico ainda mais surpresa, mais feliz, chegam lágrimas nos meus olhos, eu agradeço.

não consigo parar de sorrir. agora mesmo, não consigo parar de sorrir. sinto que essas últimas semanas me ensinaram uma porção de coisas sobre o amor, mas sinto que estou sempre aprendendo sobre o amor. o amor nas palavras, o amor nos gestos, o amor no dia a dia, o amor do reencontro, o amor da saudade. no meio de uma aula, sinto vontade de parar de falar por puro cansaço de estar outra vez repetindo a matéria, olho para as minhas três alunas que sempre estão prestando atenção e continuo falando. a atenção. o amor na forma de estudantes. o amor de formas confusas, o amor derretido, o amor dentro de uma forma de bolo. um mundo em que o amor é possível, sempre possível, sempre uma escolha na porta, sempre nos olhos, na boca, nos joelhos, nas mãos. lembro da professora que eu amo dizendo que eu tenho um olhar amoroso, que meu olhar dá outro significado a coisas e a pessoas. é uma honra ser percebida assim, embora eu saiba que não é verdade: as pessoas e as coisas são o que elas são, e eu as amo por isso. 

qualquer dia desses, estarei ainda mais cansada, sendo roída por dentro por angústias banais, querendo poder deitar em qualquer chão disponível, e vou precisar que o mundo me lembre que o amor é possível. e, no sorriso de alguém que amo, ele vai. 

na ocasião de meu primeiro ano como professora

vou escrever em uma folha de papel o nome de todos os meus alunos desse ano.

penso isso ao longo das últimas semanas quase obsessivamente. eu preciso saber os nomes deles para sempre. fico repetindo isso para mim mesma: para-sempre-para-sempre-para-sempre. eu devo ainda talvez ter tantos alunos na minha vida (sim?). eu vou esquecer seus nomes. mas queria não esquecer esses nomes. esses nomes em particular. sinto que já esqueci o nome dos meus primeiros alunos, aqueles, que conheci em vinte e cinco de outubro de dois mil e vinte e quatro. aqueles com quem convivi por menos de dois meses, mas em dez dias já tinha decorado todos, todos os nomes, surpreendendo a eles e principalmente a mim, que ao olhar para a lista de chamada, pensei: é impossível, é impossível. eu nunca vou saber. 

mas eu soube. naqueles menos-de-dois-meses, com alunos que me fizeram chorar, com o coração acelerado todos os dias antes de entrar na sala de aula me perguntando o que eu estava fazendo, meu deus, será que eu estou fazendo direito?, eu sei montar esse brinquedo?, isso vai dar certo, é possível que isso dê certo, eu algum dia vou pensar em outra coisa na minha vida além desse espaço etc. etc. etc. etc.? eu soube seus nomes, eu sabia suas vozes. hoje: escuto as vozes dos meus alunos antes de vê-los e sei que é cada um. eu sei seus nomes. meus alunos que estão comigo desde o começo do ano, por bem mais de dois meses, meus alunos que completam comigo meu primeiro ano como professora. 

um deles me diz (sinto vontade, já aqui, de escrever seu nome. uma violação? e ainda assim, é um nome tão comum, um nome que meus amigos até riem quando veem associado a mim, de tantos desses anjos anunciadores que conheço. escrevo seu nome sem escrevê-lo) que eu sou a professora que ele mais gostou na escola. eu acabei de chegar na escola! um aluno me diz que farão um clipe de uma música chamada gabriela, mas não é a que eu penso que é, descubro que é uma música de kpop (, claro). então outro aluno, criança (-adolescente, eles não são crianças) viada diz: ela tá pensando na da gal!, e eu penso e falo: se fosse na universidade, nós seríamos amigos!, me perguntando se eu deveria ou não apresentar o termo mpbicha a ela. cedo demais.

a escola é cheia de amigos da escola conhecidos em outro tempo. 

cresci em uma escola que pouco modificava seu corpo docente. descubro que não é assim (aqui? mais?). cruzo os portões da escola cansada, com sono. animada e feliz. cruzo os portões da escola desde já com preguiça de falar. com vontade de ver os meus amigos. sinto o coração inundado, ou em chamas. diante dos alunos, levanto as sobrancelhas quando eles mencionam os meus amigos da escola. vou a um passeio pela primeira vez como professora e não como aluna. lá, um deles ganha um ursinho de máquina e me dá de presente. eu recuso, porque é dele, e ele tem quinze anos, e eu trinta. porque eu não mereço um bichinho de pelúcia de máquina, uma coisa dessas, tão rara. é ruim recusar presentes, porque é bom dar presentes, eu sei, eu sei, é bom dar presentes e vê-los aceitos, passa-se um instante, o ursinho caminha por diversas mãos, o aluno retorna, professora, se você aceitar eu que vou agradecer, então eu aceito e agradeço, agradeço. 

um dia antes disso, outro aluno (o autor do primeiro recadinho em caderno de aluno que recebi na vida: professora, eu durmo na sua aula porque sua voz parece a da minha irmã, e me acalma. que lindo pedido de desculpas. eles devem ver nos meus olhos que eu sou uma tola, uma tonta, uma mole, e que eu vou cair, e cair sorrindo) me diz que queria me dar um presente de dia dos professores, mas não tinha dinheiro, mas então teve dinheiro!, e comprou (abre a mochila) uma rosa, de plástico, lamentando o plástico: seria melhor uma de verdade, e eu não acho, não, não seria, uma de plástico eu posso guardar para sempre, como posso guardar seu nome, (violação sem violar:) na cova dos leões.

estou sentada na minha mesa de pernas cruzada sobre ela e seis adolescentes estão de pé ao meu redor e me dizem que eu poderia ser professora de tudo, tudo, menos de português. um deles fala: você dá aula de história, de artes. uma diz: você dá aula de sociologia. penso no riobaldo: eu queria decifrar as coisas que são importantes. eu queria falar das coisas que são importantes. sinto minha falha como professora aí: eles não me consideram uma professora de português porque nas minhas aulas faltam orações coordenadas, complementos, adjuntos, falta subordinação, faltam objetos. eles não imaginam que o tudo que eles veem nas minhas palavras só existe porque eu amei a literatura primeiro, porque os livros, porque as narrativas, porque a alma humana, porque as histórias. será que um dia eu vou ser professora de português?, me pergunto, enquanto desenho no quadro um gráfico de horas trabalhadas dentro de um dia e em cima dele escrevo mais-valia. 

minha amiga que está fazendo estágio comigo me conta que se sentiu emocionada um dia durante a aula, em que um aluno em uma turma barulhenta e exaustiva me perguntou, no meio da exaustão e do barulho, e da minha cabeça cheia de ruídos, e do meu coração cheio de espinhos, e das minhas mãos cheias de tinta de pincel manchando os dedos, se eles tinham futuro. e eu disse: sim.

o barulho é tanto que eu sequer lembrava desse acontecimento. minha amiga narrou: você disse sim, sem hesitar, eu pensei, o que eu responderia? ali, naquela situação, talvez vocês tenham futuro, mas precisam se esforçar mais, mas você disse apenas: sim, a escola não é toda a vida de vocês, vocês são muito mais do que a escola, isso aqui é só uma parte. ela me conta isso e eu fico feliz e emocionada, como se não tivesse sido eu a dizer essas coisas, como se fosse uma outra pessoa, essa criatura que habita para dentro da sala de aula, cujos pensamentos me perseguem o dia inteiro, mas que é quase como se não fosse eu. dizem que ser professor é exaustivo por (uma lista de mil razões) você ter que tomar tantas decisões por dia. o que dizer. o que fazer. como responder. como brigar. como reclamar. se vai ou não ao banheiro. ou beber água. se é para copiar. se vai valer ponto. o que responder. o que responder. o que responder. o tempo todo, a única preocupação: eu sou adulta, eu posso sofrer; eu não posso fazê-los sofrer, não desse jeito. 

meus melhores-amigos-da-escola (é tão engraçado dizer isso aos trinta anos) estão cansados e pensam em outros futuros. sua vida não é a escola. olho para os meus alunos ao meu redor, conversando comigo, e penso que é uma loucura que eles existam e sejam meus alunos, meus!, essa palavra, e que eu serei para sempre a professora deles, e que para sempre eles serão meus alunos. sorrio para eles, como sorrio para os meus amigos, e sinto amor, sinto tanto amor, já sinto saudades, a saudade previa quando ainda se vive o que é bonito, sua vida não é a escola, a de ninguém é, e ainda assim, na escola está também a vida inteira. 

e a náusea

colocaram fogo em uma gameleira da cidade. 

o jornal me informa que a gameleira tem mais de quarenta anos. recito no automático, apenas por hábito, ouvindo palavras-chave: quarenta-anos-e-nenhum-problema-resolvido-,-sequer-colocado.

lembro do dia em que a guerra da ucrânia foi noticiada: eu estava na sala da casa do meu namorado à época, celular na mão. as pessoas diziam na internet que de tudo na vida delas, não esperavam passar por uma guerra. lembro de pensar: meu deus, vocês não estão passando por uma guerra. ver uma guerra não é passar por ela. será que devo pedir desculpas?

em algum dia do ano passado, sonho que eu e alguns amigos invadimos israel com um plano suicida de destruir a ocupação inteira. de certa forma, um sonho de extermínio. acho imoral falar disso. às vezes, tento comentar algo sobre a sensação de impotência, incapacidade, silêncio mortificante das próprias ações. sinto que é imoral. não consigo explicar o motivo. passo trinta dos quarenta e cinco minutos do divã chorando, chorando, aos prantos, tentando falar de uma ferida que. que. não, não consigo. 

colocaram fogo em uma gameleira.

quando criança, ouvir a música rosa de hiroshima era impossível. 

em edifícios, crianças, homens, mulheres, gatos, cães. 

escrever parece imoral. eu não devia escrever, ou eu não devia permitir que qualquer uma dessas coisas se tornasse objeto de escrita, de um blog, uma coisa tão pequena, tão mesquinha, tão pessoal. na sala de aula, em diferentes turmas, os alunos me perguntam do que é o meu broche. um broche. nada. respondo em todas as turmas, menos em uma, na qual um novato diz: palestina livre. 

mais fácil falar do horror de colocar fogo em uma árvore. uma única árvore. colocar fogo em uma floresta? interesses terríveis, o fogo vai se espalhar. colocar fogo em uma árvore, uma única árvore, sem intuito de que esse fogo chegue em qualquer outro lugar que não nela. o tronco de uma gameleira. naquela única forma sólida na esquina da rua, ocupando parte da pista. é por isso? pela pista? pela calçada? insuportável assim, dividir esse espaço com uma árvore?

devo seguir até o enjoo?

sinto-me exausta na escola. dia vinte e cinco desse mês, completo um ano como professora. parece impossível estar exausta na escola. impossível? injusto. por que eu estou exausta na escola? o vídeo de uma mãe chorando com seu filho nos braços. o ódio queima, arde, consome, incendeia (como se incendeia uma gameleira). crimes da terra, como perdoá-los?

tomei parte em alguns.

toda palavra que escrevo aqui parece inadequada e impossível. uma parte de mim quer colocar esse texto no rascunho mais uma vez. tirá-lo de mim, e pronto, esse gesto é suficiente. alguns [não] achei belos, foram publicados. 

respiro fundo. 

soletram o mundo, sabendo que o perdem. 

dentro da sala de aula: ruído.

uma aluna me pergunta sobre o broche. ergo as mãos tentando dimensionar o horror no pequeno espaço entre uma palma e outra. 

a imagem da gameleira em chamas e então chamuscada. troncos transformados em cinza. o repórter observa pedaços de madeira que ainda caem. 

põem fogo em tudo, exceto neles mesmos. 

tenho um sonho bonito, muito mato, ruínas antigas, estou em algum lugar do sul e um amigo foi transformado em gatinho. preciso cuidar dele. fico carregando ele enquanto gatinho perto de mim. dormimos na relva, meu amigo tornado gatinho enrolado, encostado na minha barriga. 

dentro da sala de aula: ruído. escrevo no quadro enquanto os alunos falam atrocidades às sete e quarenta e cinco da manhã. tento desligar minha cabeça disso. ah, sim. eu deveria interferir. concluo pela milésima vez no mês que sou uma péssima professora. uma professora insuficiente. não sei o que fazer, ou como fazer direito. preciso enfrentar o olhar debochado desses alunos toda vez que reclamo. e se eu deixar? e se eu só deixar? respiro fundo. volto-me para a sala, e reclamo.

no espaço entre as palmas das mãos, tento conter todo o horror do mundo. um aluno diz: e ninguém vai fazer nada? 

que tristes são as coisas.

primeiro eu quero falar de amor

no telhado da escola, um gato preto. eu e ele passamos três minutos nos encarando. if you were a teacher i would fail your class.  rio dos v...