no telhado da escola, um gato preto. eu e ele passamos três minutos nos encarando. if you were a teacher i would fail your class. rio dos versos surgirem assim na minha mente. penso em pegar o celular para registrá-lo, ele vai embora. and i can wish all that i want, but it wont bring us together. repito para mim mesma meu novo mantra: deve haver uma lição nisso. coração partido, mãos vazias, pés confusos e lágrimas ardentes: deve haver uma lição nisso. certo? fico horas aos prantos, sentindo as metáforas mais banais: buraco se abrindo no peito, estômago se revirando, tudo cheio de nós. é tudo tão banal. seus gestos: tão comuns. as coisas que eu tive que ouvir: tão normais. continuo: por que nadar nesse mar? por que as coisas aconteceram assim? a resposta simples:
(pergunto a você se em algum momento você realmente acreditou que a gente era possível. você diz: sim. pergunto a você se deixou de acreditar. você diz: a resposta simples, sim.)
porque sim.
ou: porque eu quis. por que viver tudo isso? porque eu quis. só por isso? por que as pessoas (as pessoas, ou eu, ou as pessoas como eu) buscam um sentido e uma compreensão impossíveis de alcançar? na verdade, não adianta buscar um sentido, talvez apenas construi-lo. fabricar um elefante com seus parcos recursos. por que algo assim se pôs diante dos meus olhos, e assim eu quis, e assim aconteceu? sentido exterior, destino? essa é uma boa construção? é tudo só porque queremos o que queremos? eu quero e eu faço o que eu posso e o que eu consigo? vivendo o desejo mesmo sabendo que algo seria quebrado, partido, dilacerado depois? ou é porque eu acreditei, verdadeiramente acreditei, que poderia ser diferente? que eu poderia, mágica, transformar o impossível em possível?
você diz que eu não faço ideia do efeito que tenho em você. você acha? eu vejo que você colocou fogo em tudo. por fogo em tudo, inclusive em si. por que colocar fogo em tudo, fazer tudo ruir e ficar de pé, parado, congelado dentro das cinzas? por que não fazê-lo, também? por que não procurar dentro da fuligem tudo aquilo que ainda restou, e tentar preservar? o que me dói é que eu entendo os dois caminhos, mas só vejo sentido em um e você só vê sentido no outro. nós somos parecidos, e também não somos. o que fazer com a vida virada do avesso? o que fazer com o fogo? lembro do cheiro de queimado quando eu cruzava de ônibus uma curta distância, pensando em distâncias ainda maiores. era por isso? a fumaça que eu sentia, mas não via, anunciava você e sua destruição? como eu não saberia o efeito que tenho em você, se você incendiou sua vida inteira em troca de trinta dias? no fundo, sabemos: eu não sou a razão de você ter feito tudo isso. mas eu sou o fósforo. who am i to ask for more, more, more? a professora que eu amo escuta meu lamento de ter perdido um amigo e me diz que eu ganhei mais do que o que eu perdi, mas que a questão era que eu queria tudo. muitos anos atrás, tentei traduzir um poema da anne carson: uma clínica para pessoas que querem tudo, o que faço com os meus olhos?
as amizades dizem: porque você tem o coração aberto. porque é importante isso, ter movimento, as coisas acontecem porque elas precisam se mover. porque talvez fosse o que era necessário para que outras coisas pudessem ser possíveis. porque você precisa escrever, essas coisas acontecem porque você precisa escrever. e eu continuo, mesmo diante de todas as respostas levantadas: por quê? por que tinha que ser assim e não de qualquer outro jeito? you told me this gets harder, well, it did. digo a mim mesma que consigo ser funcional, que consigo viver, fazer as coisas que tenho que fazer. meu quarto está uma bagunça, vou jogando as coisas na mesa. não consegui tirar roupa nenhuma do varal. consigo fazer aquilo que sei que preciso fazer para os outros: lavar a louça, certo, isso é possível. terminar de ler um livro porque me comprometi a mediar um clube de leitura. organizar um plano de aula, afinal, esse é meu trabalho, e é um trabalho que faz sentido porque eu me importo com ele. entro na água quente do banho e fico muito além da conta. parece impossível sair. parece impossível me mover.
ficamos horas juntos, imóveis, porque não temos futuro, apenas o presente. como no avalovara, uma tapeçaria medieval: tudo é presentificado, está tudo acontecendo sempre, o tempo é uma espiral na qual você pode saltar de um ponto para o outro como o pássaro do meu contentamento, então eu digo: olha ali você com a blusa amarela do corinthians, tá vendo? e respondo que você não vê, seus olhos não veem essas coisas; e você diz, algo ressabiado, algo debochado: eu sou careta demais, normal demais. eu concordo, mas não é verdade, mas é verdade, também. tudo é e não é, como diria o riobaldo. choro deitada no seu colo, você chora enquanto me segura. você me diz que te dói que eu te faça tão bem, e que em retorno, você me faça sofrer. não consigo responder nada, porque não há nada que eu possa dizer. quero repetir as palavras que você mais odeia: vai passar. vai passar. que bobagem, não é? then you'll discover that it's never over.
(você aponta para meu braço: não acredito que vi esse pássaro. lembro da ligação, você o descrevendo para mim e meu coração acelerado: só pode ser um alma-de-gato! nossa mútua alegria quando você confirma que sim, é sim, o meu pássaro, o meu pássaro que carrega em si o nome do seu bicho mais amado. depois, olhando para a minha boca, o talhe no lábio feito por você uma vida atrás, ainda fundo, ainda marcado, mais marcado que todas as outras ranhuras ressecadas: por que não sara?, pergunta, consternado, enfeitiçado. lágrimas nos olhos, eu digo: eu não sei, eu não sei, eu não sei por que não sara. tudo deve ser um sinal quando se deseja o suficiente.)
houve um tempo em que acreditei viver com uma assombração. para onde eu me voltava, com o canto do olho, podia pressenti-la, observar seu vulto, saber que ela estava lá. fiquei assombrada por meses. hoje, acho graça. não vivo com uma assombração, mas convoco um fantasma, um espectro, a sua presença. não preciso fechar os olhos, não preciso olhar de esguelha, sou eu quem chama. passando por tantos dias longe e sabendo que você deveria estar lá: dentro da água, ou num bar, ou numa rede, ou no show, no aniversário de noventa anos do meu avô, no café da manhã, no horário do almoço, ou separando turmas, ou ouvindo música, ou aqui e agora. você não é uma assombração. se formos pensar bem, talvez seja o contrário. você me diz: você não quer que eu te esqueça. eu digo: me esquece amanhã.
(brinco com meus amigos: minha única patologia é o amor romântico. de resto, funciono perfeitamente.)
fumamos nossos últimos tabaquinhos, você fala sobre como eu digo não com tanta facilidade para você, que faz tudo que eu digo para a gente fazer. e a conclusão disso é óbvia e evidente. eu carrego comigo o maior dos sins, e te dou pequenos nãos onde eles podem ser dados sem muito dano. você concorda com tudo que eu sugiro, enquanto me oferta na jangada da sua mão o grande não.
por que viver uma dor certa? li em algum lugar que o último gesto do amor é sempre a perda. perde-se o amante para a vida ou para a morte. então sempre se vive uma dor certa. por que me debruçar tanto sobre essa pergunta, se é apenas o que todo mundo faz, viver dores certas? vai doer, e vamos viver. vai doer enquanto vivemos, vai doer depois, durante, antes, em algum momento há de doer, e vamos viver, ainda assim vamos escolher viver porque basta, como diz a inominada para o abel, um segundo que ilumine tudo, e por esse segundo você escolhe continuar. meu problema é não saber soltar. meu problema é que eu queria mais. meu problema é que agora é preciso perder algo que brilha, que está vivo, que se move, que respira, que tem calor. lembro de antes, lembra que havia um antes?, quando você me olhava e eu pensava e dizia para minhas amigas: ele me olha com muito amor, é impressionante, mas eu sou doida; e aí descobrir que eu não era doida, e que era amor, e que agora, depois, você ainda me olha assim, feito miragem ou milagre, e é preciso que seja memória.
(o tempo todo que estive ao seu lado, o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo, tive um único mantra, o mais simples, o mais tolo, o mais impossível, o que menos dependia de mim e de qualquer uma das minhas ações, o que precisava mesmo de fé, de crença, de olhos fechados, o tempo todo, colocando as mãos sobre seus olhos ou a boca na sua, rindo enquanto tomávamos café da manhã, fazendo alguma piada diante do seu rosto miserável para que eu pudesse ouvir um segundo da sua risada, a todo instante, em cada minuto, em cada segundo do seu lado, o tempo todo, o pensamento que englobava tudo, que abraçava tudo, que ecoava sem parar na minha mente, a maior das dores, a maior das tolices, a pior das coisas, que é pedir, pedir, pedir, pedir, de olhos fechados, e saber que ninguém vai atender, mas pedir mesmo assim: por favor, mude de ideia.)
fui uma criança da mitologia grega. era uma obsessão muito séria, levada seriamente pelos meus pais. eu não sou uma pessoa séria, embora eu leve tudo a sério. orfeu e eurídice me comoviam, mas não me interessavam muito; algo engraçado de se dizer, quando penso que tanto do que eu gosto está nos dois. eu gosto de amores impossíveis. eu era uma adolescente que escrevia tragédias amorosas. por que nadar nesse mar? porque era o meu mar, e também o seu? o mar revolto que nos ensinou a estar na água. posso repetir: eu queria ser mágica. queria ser uma narradora que cria, e não que vê. eu queria desfazer o que fiz na adolescência, desfazer aquilo que eu amo observar: desfazer o impossível. um dia, sonhei que riobaldo e diadorim dançavam ao lado de uma fogueira. um dia, sonhei que uma floresta entrava por uma janela e depois o mar se juntava a ela. um dia, um dia infinito, sonhei com você. digo a você que algo que machuca é não poder, realmente, sonhar. e tudo impossível, três-tantos-impossível. tudo tão impossível, e mesmo assim eu corro para te alcançar, e você dá passadas largas e firmes se distanciado, apressado, e eu chamo o seu nome, e você se vira com os olhos imensos, imensos, a expressão de espanto no rosto, e eu ando até você e sussurro o que precisa ser sussurrado, e você me segura como se dessa vez fosse me deixar caminhar do seu lado, você me beija com as mãos no meu rosto, você repete em desespero palavras que já foram ditas, eu rio para você, com você, você, que me conta que ficou arrepiado, arrepiado dos pés a cabeça quando ouviu seu nome e se virou e se deparou comigo, você que me segura como se, e me solta como é, e eu digo: tchau!, e você diz, ainda embasbacado, tchau!, e agora sou eu quem volta, me afastando cada vez mais, e eu penso: e se na verdade, e se na verdade não fosse nem a escolha do poeta nem do amante, e se na verdade fosse simplesmente que na hora final não pudesse mesmo ser de outra forma, e eurídice tenha chamado por orfeu, e ele não poderia, realmente não poderia, ele tinha que saber exatamente o que estava perdendo, então não poderia não olhar?