duas crianças chegam na quadra, uma menina e um menino. ela é mais velha, veste uma blusa do fortaleza, está de chuteiras, carrega uma bola e uma garrafa de água, prontamente colocada no chão. ele, menor, mais novo, outra blusa do fortaleza, pés descalços. são irmãos, e ela vai ensiná-lo a jogar. primeiro, claro, precisa dar uma bronca por ele estar sem chuteiras. depois, ela põe o pé sobre a bola: – primeiro você domina, diz. depois você chuta. ela faz uma demonstração desse princípio que agora me parece elementar. primeiro você domina, depois você chuta.
depois de um tempo, chega uma terceira criança, a menorzinha de todas, uma menina coberta por uma terceira blusa do fortaleza. apelido os três, carinhosamente, de trio carniça. aqui é vozão etc. a irmã mais velha diz ao menino do meio: toma cuidado com tua irmã, que ela é pequena. é uma cena maravilhosa. a mais velha estendida no chão da quadra. o do meio pega a bola e, diante de um pingo de gente, diz, com toda a sabedoria do mundo: pilar, primeiro você domina, depois você chuta.
vivo imersa num mundo de metáforas. você não deixa passar uma, ele me diz, sorrindo. a professora que eu amo perdoa a minha obsessão pela literatura porque ela desgraça a minha vida de um jeito bonito. sinto que faz tanto tempo que não leio nada, não ando lendo as coisas direito. leio parágrafos, páginas, poemas. as coisas vão ficando pra trás. ainda posso dizer que sou obcecada pela literatura? sou obcecada pela literatura de tudo. osman lins: vivemos imersos em textos virtuais.
nas ruas e nas praias da minha cidade natal, gatinhos por todos os lados. tantas coisas banais me comovem. queria ser uma escritora melhor. queria escrever as coisas que eu gosto de ler: personagens em diálogo, ação, enredo. condenei a mim mesma a ser uma eterna escritora de diários. querido diário, a ferida no meu lábio está cicatrizando. outras ainda hão de levar um tempo.
a paixão é um estado de adoecimento. deixar a paixão também adoece. o mais terrível dos consolos amorosos são os seus amigos dizendo que a pessoa que feriu seu coração não te merece. pior ainda é ter um certo reconhecimento de que sim, é verdade, não merece. mas o que é que é de se merecer no amor, na paixão? merece ou não merece o esforço, as palavras, a vontade, o desejo? vocês, meu diário: eu sou a tola que não entende? essa devia ser uma conta simples? quem merece, quem não merece. a paixão é um estado de adoecimento: meus amigos tentam me ajudar, mas eu preciso enfiar o dedo na tomada e descobrir sozinha o quanto vai machucar.
a obsessão pelo texto me faz olhar para o mundo como se sempre houvesse mais alguma coisa acontecendo. inúmeras coincidências me colocam pra pensar na narrativa. meu ex-namorado me dizia que eu temia demais a narrativa. é engraçado porque é verdade. eu e o homem que me adoece pedimos um maço de um tabaco desconhecido num bar, apenas para descobrir que era o mesmo que ele havia dito que fumaríamos juntos. a narrativa: as coisas que a gente vê por trás das coisas que a gente vê.
meus sonhos com o mar pararam. sinto falta. lembro do dia em que sonhei que ele me entregava o moletom, eu com as pernas eriçadas de frio na areia, e então mergulhava, e eu ficava lá, olhando, olhando. o sonho com o jogador do boca juniors, aposentado, eternamente num posto de estrada ao lado do telefone esperando uma ligação que não chega, e ele vindo me contar essa história com lágrimas nos olhos. o sonho com gatinhos feitos de sonho. o sonho da janela, eu sinto que você abriu uma janela, ele disse, e tornou-se sonho. gostaria de perguntar: você se lembra das coisas que a gente vê quando nossos olhos estão fechados? não posso nem devo mais perguntar nada.
fico feliz por estar na escola. me encantar pelos alunos me alivia: estar na escola é estar num ambiente que funciona com outras regras, um trabalho que só quem entende é quem está nele, porque é como estar num palco, mas do outro lado temos não uma plateia e sim, outros atores. pode ser que faça bem. as coisas que a gente vê quando sente esperança. ainda não deu tempo de ficar cansada da rotina escolar. ano passado, inscrevi uma segundanista no vestibular e ela me agradeceu efusivamente. esse ano, sou sua professora: ao chegar na porta da sala e me ver, ela exclamou finalmente!, com uma profunda satisfação. finalmente! imagine uma adolescente ver você diante da lousa e com alegria exclamar um finalmente.
uma vez, perguntei a ele se sonhar tanto me tornava uma boba. ele negou, mas não consigo mais evitar a sensação. sonhar tanto, uma bobagem. devo ter que aprender isso também. senti que estava aprendendo tantas coisas novas, coisas bonitas, que valiam a pena. aprendendo e reaprendendo. talvez eu sofra agora de ter que largar tudo isso no meio da lição. afinal de contas, eu sou uma aluna que se tornou professora.
ele me perguntou se tudo só teria valor se o final fosse diferente. saindo com meus amigos, um deles lê a pergunta de um jogo: é melhor amar e ter perdido ou nunca ter amado? todos concordam que é melhor amar e ter perdido. a professora que eu amo diz que vou encontrar paz antes dele, porque eu tentei tudo que era possível, estiquei até o limite. de certa forma, então, somos iguais, ainda que buscando resultados diferentes. depois, me corrijo. lembro de como o medo atua sobre cada um de nós. viver é muito perigoso, carece de ter coragem.
nos momentos mais difíceis, minha ideia era: eu já vi que é possível viver o que há de doído no mundo com essa pessoa. pensava: vai chegar a hora de aprender também a viver o que é bonito, tranquilo, bom e divertido. meu amigo lucas s. me diz que essa parte boa a gente nem precisa aprender a viver, gente só vive. as coisas que a gente vê quando presta atenção. anoto quais são os meus lamentos: lamento ter me enganado, lamento ter sido bobinha, bobinha, a ponto de acreditar tão piamente que chegaria o momento da sua risada solta. lamento que ele tenha feito tudo para comprovar minha tolice. não, você não devia ter acreditado. as coisas que a gente vê quando escolhe ter o peito aberto.
o que era tanto que eu gostava de ver? lembro dos olhos castanhos, cansados, olhos bovinos, doces, mansos. o cabelo bagunçado no qual eu queria botar a mão. as mãos se movendo durante as conversas. os braços, os ombros. gostava de olhar, olhar, olhar. meu olhar carregando um monte de certezas que dariam em nada. as coisas que a gente vê, as coisas que a gente não vê.
preciso reaprender a mesma lição de uns anos atrás. como reorganizar o tempo, o espaço, o corpo. reordenar o olhar. olhar para as coisas e não pensar no que elas carregam de sentido atrelado àquelas mãos que não mais tomarão as minhas. olhar para as coisa e vê-las pelo que são, com o sentido delas próprias, ou outro qualquer que eu crie. lembro que a narrativa me assusta, mas eu nunca fui personagem, sempre fui narradora.
quando ainda era possível, disse a ele que o mundo inteiro era uma recordação de que ele existia. as coisas que a gente vê quando estamos flutuando com os olhos na altura das ondas. é verdade, mas não é isso: erguendo a cabeça acima do mar, olhando para o mundo, a verdadeira recordação é a de que tudo, o mundo, existe. é a que eu existo.