novamente, sonho com o mar. acho engraçado esse tanto de sonhos com o mar, desde quando longe dele. o mar pela janela. o mar e você na areia. o mar cheio de pedregulhos. uma casa dentro do mar, você se lembra? o mar, o mar. acordo por uns segundos confusa, a cabeça doendo na madrugada. quero anotar no bloco de notas o sonho, desisto, vejo a hora, tenho vontade de rir: um dia atrás, nessa mesma alta hora da madrugada, sua voz ainda era possível. me viro de bruços e enfio a cara no travesseiro. é preciso reaprender a dormir.
tenho vontade de escrever tudo com detalhes. eu brincava: queria ser a annie ernaux cearense. o maior motivo dessa brincadeira, percebo agora, é que eu não tenho, claro, a distinção dela. muito menos discreta, muito mais direta, sempre muito centrada em mim mesma. quero registrar tudo, todos os lugares, os bares, os cafés, as praças, cada um dos beijos, cada uma das lágrimas. alguém ainda aguenta ler histórias de amor hoje?
se me dessem um calendário que fosse do dia do meu aniversário até o dia vinte e dois de dezembro do ano passado, eu poderia apontar para cada quadradinho de dia e falar do que aconteceu. essa foi a madrugada depois de um show que não fui, e nessa hora o ponto de táxi ao lado do carrefour recebia você, bebendo uma cerveja e me enviando uma mensagem de voz. esse foi o dia em que cantamos mr. brightside juntos. aqui, a gente passando raiva juntos. aqui, a gente dividindo um tabaquinho depois de passar raiva juntos. você me conta que quando nos chamei para ir embora, você queria dizer não. você me conta isso no caminho mais longo. fico feliz que ainda haja algo para se descobrir, ainda que nos instantes finais. se pulo para outro dia, nossos pés em saturno, sua boca na minha. se venho para essa semana, você louco, risonho lendo a lista no meu bloco de notas, encantado com tudo aquilo. se ponho meu dedo em uma segunda-feira de dezembro, amanheço com você na minha casa, seus passos decidindo te levar até mim. aqui ou ali, nesse dia ou em outro: nós ouvindo música, conversando sobre filmes de terror, falando historinhas de vida. o corinthians aparece agora como uma coisa brilhante, importante, destacada das demais. você me revela, maravilhado: nos apaixonamos sem beijar na boca!, e eu rio, rio, minutos a fio rindo dessa informação.
você me disse que queria viver no meu mundo, uma vida atrás. você se despede perguntando se eu consegui também viver um pouco no seu mundo. digo que sim, mas horas depois penso que essa não é a verdade. seria impossível viver no seu mundo. seria preciso que você cruzasse uma fronteira, ou que caminhássemos juntos para um outro mundo, nem meu nem seu, ainda a ser encontrado por nós. lamento o tanto de medo que impede esses passos. continuo no meu mundo, você no seu.
penso naqueles momentos de absoluto silêncio, olhos nos olhos. uma vez, você disse: qualquer pessoa que passa por nós sabe o que está acontecendo.
tenho um problema com o amor. quer dizer, com o amor romântico. quer dizer, com a paixão. tenho um problema porque esqueço que ela é (para mim? para todos? para alguns?) um estado totalitário. a paixão impõe uma nova forma de pensar. diante dela, é preciso aprender a ser dividido: uma parte de mim está vivendo o que eu preciso viver, minha vida cotidiana, meus afazeres e deveres, tudo aquilo que sustenta minha normalidade. uma parte de mim não se importa com nada disso, não quer saber de nada disso, quer apenas o que quer, sonhar com o mar entrando pela janela junto de uma floresta, janelas abertas, olhos cansados.
annie ernaux fala sobre estar entre a memória e loucura. minha amiga dá uma risada nervosa e diz que estamos todos loucos. eu devo estar. cansada da loucura, tento celebrar a memória. uma noite em uma mesa de pracinha, você pedindo o isqueiro que estava na minha mão e dizendo: deixa eu acender, enquanto levava as mãos para próximo da minha boca. outra noite, na mesma mesa, suas mãos sobre as minhas pernas. tenho vontade de escrever tudo para que daqui a muito tempo seja possível evocar o que agora só existe na lembrança com força de verdade. é só lembrança, mas já foi real: ser tão cedo de manhã e já estarmos nos braços um do outro. ser tão tarde da noite e ainda estarmos buscando os braços um do outro. dentro do carro (sobre o trevo, a cem por hora, ó meu amor), esfregando nossas cabeças juntas como bichos dando carinho. e quanta coisa já devo ter esquecido. quanta coisa ainda vou esquecer.
posso recordar de muito do que foi: o abraço, o beijo, o cheiro, a sensação do rosto nas mãos, cabeça no ombro, mordidas no pulso. fico triste de esquecer muito do que foi dito, tanta coisa que foi dita. deveria ter escrito um diário, anotado cada uma das palavras. sempre me importei muito com elas, e elas são as primeiras a partir. fecho os olhos. a sensação de estar dentro do mar em sonho e dentro do mar verdadeiro se chocam em mim. minha certeza se chocando com a sua incerteza. você, personagem trágico da história que escolheu escrever. meu desejo de preservar a beleza me faz encerrar a narrativa, desejando que ela pudesse continuar.
no final de outubro de vinte e três, ouvi da analista que eu tinha muita dificuldade de soltar das coisas. também já esqueci de muito do que ela me disse, mas não disso. toda vez que não consigo deixar algo, olho para as minhas mãos e sussurro: soltem. soltem. me deixem soltar. elas são desobedientes, hesitantes; muitas vezes, mais fortes do que aquilo que eu digo entredentes. um estudo sobre mãos talvez se torne um pouco profético. é demais acreditar nesses pontos do destino, enquanto ainda peço que soltem, deixem ir?
sinto que poderia por muito tempo continuar. não, não continuar. inaugurar algo novo e estar com esse algo até ele se tornar antigo. sinto que poderia carregar com você o que aparecesse. sinto um monte de coisas que são sentidas em vão. claro, essa frase é injusta. não se sente nada em vão. tomo uma decisão. escolher algo é tentar dar norte ao tempo que vai passar, ainda que não possamos prever o tempo. eu digo as coisas que sinto, mas será que as sentiria mesmo? será que seria mesmo assim? será que seria melhor ou pior do que aquilo que eu imagino? vítima da imaginação. vítimas da imaginação.
quero guardar na memória você sussurrando meu nome. como toda besta romântica, decreto para mim mesma que era assim, nesse tom de voz, dessa maneira, com essa inflexão que meu nome deveria ser dito, como se você revelasse a mim um nome secreto por detrás do meu nome. você diz que ama a minha voz. você diz que a doçura e a delicadeza dela embalam você, hipnotizado. minha voz, uma voz tão comum. mas eu entendo: é a voz-para-você, também. não a voz de professora, nem de mesa de bar, nem de aluna da universidade. outra voz, um segredo de travesseiro. de minha parte, você já sabe: a sua voz foi alegria para meu coração, desde antes. ou: porque sua voz foi alegria para o meu coração é que precisamos definir que há um antes.
de olhos fechados: o mar, a sensação do mar. demoro a conseguir dormir outra vez. me mexo na cama, procurando o que nunca mais vou encontrar. na penumbra do quarto, abro os olhos e ponho as mãos diante do rosto. quase consigo ver. quase consigo ver. soltem, eu peço, e elas deixam ir.
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