quatro meses atrás, eu tive uma experiência extática. vi deus ou vi com os olhos de deus uma luz que jamais verei outra vez. lembro do rosto, das mãos sobre as pernas, os botões da camisa, lembro do olhar estarrecido diante do meu deslumbramento. sorrio: e tudo isso dentro de um celta 2013. nesse dia, você me diz: eu quero viver no seu mundo. quatro meses atrás, outra vida. eu quero viver no seu mundo. outra vez já tive que escrever que era impossível, impossível para você cruzar a fronteira, a barreira, o limite, essa coisa que as pessoas inventaram para separar a terra, que é uma só. e ainda assim, fronteiras, barreiras, limites. você arrisca colocar o pé, a travessia. você arrisca, arrisca um pouco, o coração despenca feito pedra. a sentença: você quer viver no meu mundo, mas não pode, não consegue. dentro de um celta 2013, vejo você como nunca vi ninguém, e como nunca poderia ver outra vez. o meu mundo, o seu mundo. impossíveis um para o outro.
contei uma mentira – disse que não valia a pena. não posso mais me corrigir, não tem como voltar atrás, impossível regressar, modificar qualquer decisão, qualquer escolha. tenho uma crise de riso diante da nossa amiga, crise de riso que parece que a qualquer instante vai se tornar um choro copioso, e digo: deu tudo tão errado, como pode ter dado tudo tão errado?, surpresa com a minha surpresa. como eu não poderia imaginar que daria tão errado? penso em você, quatro meses atrás: porto seguro, rocha sólida, alguma firmeza. e agora? eu deveria me arrepender profundamente de tudo: sinto falta do meu amigo. tudo dói, eu me arrependo, eu não me arrependo.
sinto que já não adianta mais escrever. sinto que já repeti tudo. penso: preciso me organizar, ser uma amiga melhor, uma professora melhor, uma leitora, uma pesquisadora, uma filha melhor. mando mensagens para algumas amizades entre o pedido de desculpas e a gratidão eterna por me escutarem tão repetidamente. minha repetição favorita: me repetir sobre me repetir. queria conseguir me livrar de outro jeito, ser alguém que não precisa falar, não precisa escrever, não precisa lembrar, rememorar, matutar. ah, que canseira dessa personalidade, desse jeito de estar no mundo, desses olhos, dessa voz, um cansaço imenso de mim mesma, mas é o que eu tenho, é o que eu tenho. penso na admiração por todas as pessoas que ao contrário de mim não sentem como necessidade essa exposição de si, compartilhar o que pertence às folhas de caderno, à caligrafia. poderia eu me transformar em outra? e que imenso cansaço também, lamentar que sou assim, sonhar em ser outra.
você diz, algo impaciente: não, você não entende. como se você precisasse defender essa dor de qualquer tentativa de compreensão com unhas e dentes. como se não fosse possível entender a dor, mas fosse possível entender que a partir dela, tudo é possível, até o que era impossível: a partir dessa dor, é possível prejudicar, ferir, machucar. a dor de um bicho, não se entende, apenas aceita-se a mordida, o arranhão, é um animal ferido, você não entende, é preciso suportar tudo, tudo, tudo para que essa dor pareça acolhida. a punição é justa e necessária, a punição há de purificar nossas almas, a escolha é por sofrer, por amargar, por ferir, apenas assim poderemos ser salvos.
nunca pude dizer, é você que não entende. e também não posso dizer. não posso dizer porque você não pode me ouvir, também porque falar, explicar é impossível. se minha dor era sentir que você não podia me ouvir, então eu precisava escutar. escutar, escutar. tudo o que você me disse e tudo o que silenciou.
paro de escrever.
isso aqui é apenas um post de blog. sem exercício estético, sem pensar na escrita. penso em reler as coisas que escrevi dois meses atrás. a tragédia e a dor de tudo, permeadas de saudade, de desejo, de vontade. não releio. ali, o mundo ainda parecia possível, mesmo não sendo. o diário dos meus sentimentos era menos exaustivo, talvez. esse aqui, não. enjoo das minhas próprias palavras. o coração partido é o mais bobo de todos os objetos estéticos. disco arranhado, lar dos maus poetas, como eu. penso em apagar tudo, não apago. penso em como poderia salvar qualquer uma dessas coisas (minhas palavras, eu, você, a gente) e não posso salvar nada. talvez essa seja uma forma de liberdade: dar-se conta de que é impossível salvar e ser salva. sua ausência pesa no meu dia a dia, mas eu sei, já aprendi, que vivemos a partir das ausências significativas, a partir delas, com elas, contra elas. imagino um mundo paralelo, alguma escolha certa sendo feita, então podemos estar rindo juntos, podemos ouvir uma música, podemos assistir a um jogo. é difícil não considerar que essa é a pior das alternativas, que tudo foi precisamente construído para dar errado. saturno devora as suas filhas, e as vomita, e as devora outra vez. toda dor para a filha devorada se transforma em lição: dessa vez, evitarei os incisivos, não rompa a minha pele, apenas me triture. em outro mundo, em outro mundo, nem o meu, nem o seu.
– é claro, agora mesmo eu não passo da mistura do lamento e do sonho. ainda na barriga de meu pai, sei que é, como sempre, questão de tempo. o mundo acaba e recomeça hoje mesmo, todos os dias. com um sorriso, lembro das suas mãos se movendo durante uma história, uma explicação, uma indignação. com um sorriso, lembro de rirmos juntos, até no meio do desespero, até que não foi mais possível (, mas ainda foi, não foi? um sorrisinho no meio das lágrimas, comigo é sempre possível). com um sorriso: dois meses atrás, um mês atrás, quatro meses atrás: sua boca sobre a minha, seu corpo, tão sólido, tão sonhado, contra o meu. às vezes, vinha como surpresa, com um sorriso, a maravilha de se encostar, apoiar, acolher no corpo amado. um mundo, o mundo era possível.
nos meus sonhos, você surge esbaforido, olhos enormes, a boca buscando ar: prestes a dizer algo que lançaria nós dois ao abismo. na minha memória, as lágrimas rolando pelo rosto em tantas ocasiões diferentes, e o seu abraço. no meu dia a dia, apenas o nosso silêncio, que já não é mais aquele silêncio compartilhado. está tudo bem. um mundo ou o mundo será erguido ou reerguido. para o bem e para o mal, as coisas são sempre impossíveis de serem vividas, até serem.
você me disse que eu ia ficar bem porque sou cheia de amor. deveria ter te devolvido com outra dessas verdades que são impossíveis para você, enfraquecido de si mesmo: cheio de amor ou não, você também há de ficar bem.
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