no divã, disse rindo para a analista que o único personagem com quem eu me identifico é o capitão ahab. ri porque é claro que eu não sou o capitão ahab -- mas eu sou. ela disse, em resposta, não somos todos? devemos todos ser um pouco o capitão ahab. mas quem mais entenderia a alma de um velho monomaníaco, obcecado por uma perseguição sem fim, amargando a própria alma pelo que ele não alcança, se não nós, meninas, garotas e mulheres escorpianas?
eu também não sou o capitão ahab porque não sei não dar risada. esse é o maior fato sobre mim: eventualmente, estarei sorrindo. lembro de estar sentada no banco do carro, o rosto vermelho de lágrimas, aquele lamento sem fim, e virar para o homem do meu lado, tresloucada, dizendo: e agora, com quem eu vou ver a copa do mundo?, antes de explodir em uma risada entrecortada pelos gemidos do choro.
a primeira lição para os escritores medíocres como eu, viciados na própria experiência, no diário, na elaboração de si mesmos, é a seguinte: você não deve se levar tão a sério.
sou apaixonada pela narrativa. ser apaixonada pela narrativa me faz esticar tudo até o limite. ou essa sou eu, buscando explicações e justificativas. ser apaixonada pela narrativa me faz aceitar mais um encontro, ouvir mais uma palavra, dar mais um abraço, passar mais cinco minutos juntos. e se for precisamente nesses cinco minutos que o dorso da cachalote vai se revelar no oceano? enfim poderei naufragar em paz: fui até o impossível.
mandando um áudio para meu amigo, digo ensandecida: nada que eu li me preparou para isso, nenhuma música que eu ouvi me preparou para isso, a arte é tão menor do que a vida. coloco a frase aqui porque ele gostou dela, destacou-a das outras tantas coisas que eu estava dizendo. acho que eu já disse essa mesma coisa tantas vezes, em tantos momentos diferentes, falei para os meus alunos, falei dando aulas pra graduação, devo ter dito no blog, devo ter repetido as palavras de outro cearense escorpiano, viver é melhor que sonhar, essas coisas todas. meu pai me pergunta, preocupado: o que esses livros todos te ensinaram? e a resposta que eu nunca poderia verdadeiramente dar é um aliviante nada, nada, nada, não me ensinaram nada, me puseram à mercê da imaginação, mas aprendizagem mesmo, só o aqui, o agora.
talvez essa seja uma mentira. não devo corrigi-la.
muito tempo atrás, o homem que [aqui me falta uma forma de caracterizá-lo. era melhor escrever você. ainda que o destinatário jamais leia o texto, é para ele, e você resolvia tudo que não está resolvido depois desse que. o homem que eu amo, mas não posso. o homem que eu sinto falta, e raiva, e mágoa, e saudade. o homem que alguma outra besteira como essas. o homem que acabou com tudo. o homem que escolheu morar em um incêndio] um dia estaria pranteando ao meu lado, inconformado com as nossas próprias escolhas, me perguntou se um dia iria presenciar o lançamento de um livro meu. enquanto eu tomava banho, a água escorrendo levando embora meus fios de cabelo, que há mais de um mês caem aos milhares, pensei: se eu lançar um livro, ele nunca o lerá. me pareceu aí tremenda a distância entre quem nós fomos, quem poderíamos ser e quem acabamos nos tornando.
muito tempo atrás.
eu sonhei muito. qualquer pessoa que conversou comigo nos últimos oito meses sabe que eu sonhei muito. minha amiga me pergunta: você acreditou mesmo, ou apenas quis acreditar? e a dor é ter de responder que para além de qualquer racionalidade, qualquer ponderação, eu de fato acreditei. escrevi isso antes, e devo me repetir agora: o coração partido é um tema monótono. lembro de muito tempo atrás, a sensação de formigamento, calor. uma paixonite lúdica, eu brincava, mas como outro amigo me ensinou, até brincar é sério. disse que uma pessoa que escreve como eu não pode se levar tão a sério. o outro lado da moeda, ou o outro lado da minha moeda, é que eu rio muito de mim mesma, e levo tudo que não eu mesma a sério. então brincar. então me apaixonar. então sonhar.
a passagem do tempo me atormenta. sei que ele vai passar e será a única forma de alívio. tantas coisas aconteceram no espaço de quatro meses na minha vida que eu sinto que agora estou passando por um processo de descompressão. se tanto mudou em tão pouco tempo, o que mais pode mudar? não faço ideia de como estarei me sentindo daqui a dois meses, três. daqui a mais oito meses. e ainda assim, sinto tanta pena, é engraçado. lembro do fim do meu antigo namoro quase três anos atrás, como eu ansiava pela passagem do tempo, só a passagem do tempo me salvaria, diminuiria o sentimento, resolveria a dor. sei que ela fará isso, mas quase quero recusar. por favor, não passe tanto assim, dessa vez eu não quero esquecer. sei que isso é loucura, uma loucura que ecoa a loucura de muito tempo atrás de um homem sem promessas: ele dizendo que não queria que passasse. eu ria, eufórica. fico me perguntando o motivo de agora estar tão debilitada, de precisar até ir num psiquiatra depois de dez anos. o silêncio onde antes havia uma presença não é nenhuma novidade. então por que chorar tanto?
na academia, escuto change your mind depois de uns doze anos. conto repetições estúpidas enquanto a voz do brandon flowers enche os meus ouvidos, so if i have a chance, would you let me know? e eu sinto vontade de morrer e de dar risada. fico com a segunda opção. essa deveria ser outra das nossas músicas de vítimas da imaginação. imagino por uns segundos o mês de dezembro, como seria, você dirigindo o celta e eu cantarolando no banco do passageiro. acabo de tomar um susto: olha só, escrevi você sem nem pensar. não volto para me corrigir. consigo saber precisamente o olhar dele diante desse susto, e diante dessa música, se ela tivesse sido ouvida, tanto tempo atrás. sozinha, sigo sendo vítima da imaginação.
tenho vontade de pedir desculpas aos meus amigos. mas mais importante é agradecer a eles. o pedido de desculpas segue porque estou novamente escrevendo sobre o mesmo tema. queria olhar para outras coisas. sinto que olho, às vezes. o mundo continua acontecendo. tenho medo de deixar de ser interessante de se estar por perto. o que fazer com um coração partido? tento ter aulas comigo mesma do passado. como foi mesmo que a gente passou por tudo aquilo? parecia o fim do mundo. era o puro desespero. agora não me sinto desesperada, mas a sensação é a de que as coisas estão fora do lugar. material de pesadelo: os dias correm normalmente, mas na garganta você sabe que tem algo de errado, um pressentimento, seu coração bate em alerta. algo está fora do lugar, mas é impossível corrigir. você tem que continuar andando pelos corredores, cruzando as praças, olhando para os caminhos outrora caminhados a quatro pés, quase vendo a sombra daquilo que deveria ser. mas não deveria ser, porque não é. as coisas são apenas o que elas são.
tenho vontade de pedir desculpas aos amigos porque sinto que eu devo fantasiar demais. eu poderia narrar essa história de outra maneira, à maneira da raiva. eu poderia vomitar escorpiões, alfinetes, lâminas. eu poderia transformar tudo em outro tipo de pesadelo. não consigo. disse a minha amiga que o amor me deixava burra, ela negou prontamente: o amor não te deixa burra. ela tem razão. o amor não me deixa burra. eu consigo enxergar todas as feridas, e ainda assim. ainda assim: sussurro no escuro do quarto, a mão sobre o coração, como se no silêncio absoluto minha voz pudesse atravessar tanta distância: volta.
quando tudo passar, e vai passar, talvez eu me surpreenda com o tanto que eu senti. uma astróloga me diz que esse ano vou aprender sobre o lado destrutivo do desejo. é o que tenho feito desde janeiro. em outro janeiro, daqui a um ano ou dois, posso ter o resultado dessa aprendizagem, olhar para trás e pensar que tudo aconteceu como deveria para que soubesse o que sei hoje. mas esses são planos para o futuro. lembro da ferrante: a vida, ao contrário dos romances, não tende para a clareza, mas para a obscuridade. eu ainda devo ruminar por muito tempo, até inventar um sentido.
é demais abrir o coração assim? anos atrás, um anônimo me disse que deveria ser muito bom ser amado por mim. achei e acho engraçado: a imaginação. fazia muito tempo que eu não amava alguém dessa maneira tão totalizante e totalitária. o desfecho era assim tão evidente? a imaginação, uma falha.
escuto transatlanticism depois de muito tempo. uma escolha delimberada de enfiar a décima espada em mim mesma: no tarot, o recado de que do chão não tem como passar. quando adolescente, a repetição do i need you so much closer parecia ser a mais importante já ouvida. agora, the rhythm of my footsteps crossing flatlands to your door have been silenced forevermore me deixa estarrecida. nunca mais?
lembro daquele dia, o reencontro. olhar para trás e saber o que se perdia. quantas vezes choramos juntos. alguém além de mim para acreditar que algo bom poderia sair de tanta lágrima? os livros não me ensinaram mesmo nada: há muito tempo tudo o que eu mais gosto de ler é aquilo que me dilacera. fecho os olhos e vejo novamente meu último vislumbre dele: duas horas da manhã, deixando meu prédio para entrar num uber. fiquei parada ainda muito tempo no mesmo lugar, diante do vazio da rua. para sempre surpresa com a mesma lição: como tudo que amamos pode se alterar em um instante. é sempre engraçado. tudo que é bom acaba abrupta e rapidamente. tudo que é dor precisa do exercício de uma vida para passar.
o coração partido é um tema monótono. agora sou insone: durmo duas, duas e meka da manhã. quanto sofrimento besta. todo mundo sabe que vai passar, inclusive eu, ainda que dessa vez eu saiba que estou me agarrando além do que devia a dor, como se dela ainda pudesse brotar algo. quero parar de escrever esse texto. como em frederico paciência, com uma anedota deixada para o final, ficamos com essa: no começo do ano, um dos meus alunos mais amados me disse, falando da sua mudança de cidade: para viver um sonho, a gente tem que deixar algumas coisas para trás.
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