hoje vai chover em qualquer outro lugar

marco no calendário que faz doze dias que eu choro sem parar.

ponderação: tem períodos em que outras pessoas choram por muito mais tempo. nesse exato momento, alguém chora todos os dias há um ano. alguém chora todos os dias há três anos. chorar por doze dias não é nada demais, não é nem um mês, não é nem metade de um mês. 

ontem tive uma crise de choro que entrou pela madrugada. mas antes disso, chorei porque pessoas da secretaria de pós graduação me responderam a um e-mail com tanta gentileza. eu pensei: eu sou um ser humano. ah! que grande descoberta. eu sou um ser humano, é possível que outro ser humano me trate com gentileza. 

veja, caso haja você, leitor, veja que esse texto é um texto de diário. eu tenho um problema de só escrever diário. e o problema maior é quando o diário não passa de um diário, quando eu não tenho ritmo, quando as palavras estão todas erradas, quando tudo é simplesmente o que é. ontem eu chorei porque me trataram bem. que grande bobagem. parece até que eu sofro. 

será que consigo recomeçar?

o trabalho na coordenação. eu sinto que meu dia é unicamente ouvir problemas. tentar resolver problemas. não conseguir resolver os problemas de uma maneira satisfatória. de alguma forma, o meu dia também é consistentemente formado por ser desrespeitada por adolescentes, por servidores públicos e por mães e responsáveis. chorando no divã, explico para a analista que eu entendo, porque os adolescentes são adolescentes e meus adolescentes sofrem mais do que o que eu jamais sofri na minha adolescência. os servidores estão todos adoecidos, cansados, exaustos, então eu entendo. e eu entendo as mães e os responsáveis, as mães, então, eu sinto que vou chorar diante delas, a exaustão delas ultrapassando o próprio corpo e estendendo os dedos na minha direção, eu nunca vou entender, mas eu entendo.

recito como consolo: trabalhas sem alegria para um mundo caduco.

(não sou tola, apesar de ser: isso não é consolo nenhum).

meus alunos brigam na escola, o diretor chama o batalhão escolar, estou no banco de trás da viatura entre os dois, amassada, eles são meninos altos, dezesseis anos, mas altos, muito altos, mas meninos, o policial olha para o banco de trás e faz um comentário sobre meu peso, sinto vontade de dar risada do absurdo de tudo aquilo, meu aluno com os lábios ensanguentados, o outro com um corte acompanhando o nó dos dedos. por algumas noites, só penso no meu aluno, o sangue dele e o choro que ele tentou prender até eu perguntar por que ele não procurou falar comigo. ele me diz, de dentro do vermelho da boca, a voz amassada pelo choro, ele me diz que não podia procurar ajuda porque se não os outros meninos. 

estou exausta das regras da masculinidade. um carro bate em outro carro que bate no meu carro. dois homens, um mais velho do que eu, outro que deve ter uns vinte e poucos anos. vamos resolver tudo conversando, bom, é isso, estamos aqui agora. meio segundo em que estou preenchendo o boletim de ocorrência on-line, escuto gritos. o mais velho empurra o mais novo. o outro responde com um soco. o mais velho: eu tenho um negócio aqui pra você, indo em direção ao carro. eu penso que merda, esse cara vai pegar um revólver. ah, é um faca. um faca empunhada na direção do outro, parado do meu lado com o celular em riste, eu digo: meu deus, vai pra lá. munida de uma autoridade inexistente, digo: guarda a faca. ele me olha confuso, hesitante. guarda a faca. ele fecha o canivete, põe no bolso. ainda muito séria: não, não no bolso. coloca de volta no carro. ele obedece. contando isso para a minha amiga, dou risada. olha como eu sou uma boa coordenadora!

minha cabeça dói e eu não tenho soluções. choro porque vou ao cinema e quase nove horas da noite encontro um aluno que trabalha em um quiosque do shopping. eu o vi de manhã na escola. parece obsceno eu estar me divertindo sexta à noite, e ele sorridente vindo me cumprimentar, de uniforme e touquinha no cabelo. alguns professores dizem que nossos alunos não querem nada. quando eu era criança, estava assistindo a uma reportagem com meu pai, que mostrava uma vida dura de uma família de trabalhadores rurais. a repórter perguntava a um garoto que parecia ser meu aluno e hoje deve ter quase quarenta anos: qual o seu sonho? ele respondia: tem sonho não, acuado pela câmera, o olhar muito longe. olhei para o meu pai e ele estava chorando. ele disse: essa é a pior coisa que pode acontecer. 

meu pai nem deve se lembrar disso e essa é minha memória mais importante com ele.

hoje meu pai me conta que vai ter que fazer infiltração em ambas as mãos. ele diz: meus ossos estão se desfazendo. uma vez, eu tirei cinco-vírgula-oito em uma prova de matemática na quinta série, ou na sexta?, e meu pai cerrou o punho e socou o painel do carro com tanta força que abriu um buraco. esses ossos estão se desfazendo. 

(como eu, meu pai é sensível e dramático. na verdade e em certa medida, somos iguais, ou quase, um espelho voltado para um espelho partido, e isso assusta a nós dois.)

deitada no divã, aos prantos: tem algo de errado comigo, tem algo de errado comigo. eu não sei o que fazer. o que me consola é saber que no mundo tantas pessoas sentem isso. trabalhas sem alegria para um mundo caduco. devo seguir até o enjoo? arquiteto falhado, músico falhado. odeia a burguesia, adora crianças. indesculpavelmente sujo. 

falo isso para a minha mãe, e ela diz que bem, mas o seu sofrimento é seu e dói em você.

minha cabeça dói. coloco meu coração na mão de alguém que dele não pode zelar e lamento comigo mesma estar presa no labirinto da minha tolice. lembro quando eu achava, sentia, pressentia que minha presença causava alegria. sinto o peso de ser um peso. sinto que meus sonhos se desfizeram todos. os sonhos de amor, li fanfics demais, é claro que não seria assim. os sonhos do doutorado, como eu pude achar que daria conta disso? os sonhos da escola, ah, os sonhos da escola. talvez se eu voltar para a sala de aula eu possa sonhá-los de novo. vou dar um recado em uma turma e um aluno que foi meu primeiranista ano passado diz, sorrindo: se deus quiser você é nossa professora ano que vem de novo. 

se deus quiser.

no caminho para a academia, vejo uma mulher dando água para um pombo. pergunto o que aconteceu e ela me explica que o pombo bateu no maldito vidro espelhado, eu e ela amaldiçoamos o vidro espelhado, ela diz que não sabe como ajudar, ele deve ter quebrado a asa, ele deve estar com uma concussão, ela aponta para ele: ó, o olhinho dele está fechando. ela trazia nas mãos uma vasilha cheia de pedaços de pão. para aquele pombo de asa quebrada, olhos fechados. as moscas já estavam perto. ela repete: eu não sei o que fazer. digo a ela o único e verdadeiro consolo, terrível em sua verdade, você faz o que você pode.

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