a casa assassinada

minha casa é devorada por formigas gigantes.

uma amiga me diz: se existe alguém capaz de transformar o que é feio em bonito, é você. isso, logo aprenderemos, não é um elogio. 

sinto que minha garganta não existe mais. nem sinto dor nela, é mais um cansaço. um cansaço. as formigas gigantes passeiam pela parede da cozinha e não há nada a ser feito. elas são noturnas. de dia, devem se recolher por detrás das minhas paredes, organizam seus cotidianos, conversam entre si, aos sussurros. à noite, vagam pela minha casa como donas. eu não vou matar uma formiga. eu não machucaria uma mosca, os melhores alvos são maiores. em alguma realidade alternativa, eu não faço tudo errado. nela, não estou cansada, e posso sorrir e respirar aliviada. as formigas não vão devorar o que quer que reste da casa. 

minhas palavras são todas erradas. ensaio diante dos estudantes tentar dizer a coisa certa. a plateia é pouco exigente, por vezes desatenta. sorrio diante deles, alguns sorriem para mim. confesso a meninos de quinze anos: estou tão, tão cansada. alguém me para no corredor e me pergunta se estou bem. cansada, sorrio e respondo que não. um cheiro de bicho morto se apodera da minha mesa. penso que isso é normal. devo ser eu mesma, criatura suja. ou estou morta e nem percebi. alguns dias depois, descubro que é uma marmita esquecida por um estudante, tão bem guardada que foi preciso investigar para descobri-la. posso ficar aliviada? as formigas não vão me devorar, ainda.

exausta, recito: tenho horror, tenho pena de mim mesmo e tenho muitos outros sentimentos violentos. esqueci como se lê qualquer coisa. esqueci como se escreve qualquer coisa. estou falhando outra vez. o travesseiro inundado de lágrimas lamenta comigo, oh, que pena, que pena. as formigas nas paredes continuam seus sussurros. um bicho qualquer que entrou no meu quarto passa pelo meu rosto, patinhas rastejantes cruzam, emocionadas, o rio que corta a minha bochecha. eu, um túmulo. 

um pedaço do piso se solta. até mesmo o chão já desistiu do seu serviço, ficar imóvel. sinto náuseas e me apoio no vaso sanitário, as mãos geladas. chamo um amigo de máquina de fabricar mentiras e me corrijo, carinhosa: máquina de inventar ficções. a única mentirosa sou eu. bem-me-quer, mal-me-quer. colo meu ouvido na boca da noite, e ela repete, docinha, docinha, que eu mereço, eu mereço, eu mereço. as formigas se apressam em seu caminho, em breve fabricarão um trajeto que dê conta de tudo que podem levar de mim. me desfaço aos pouquinhos, um presente dado em partes.

cansada, ouço alguém falar comigo e a voz não ultrapassa meu aquário. tudo muito, muito longe. repito diante dos estudantes: esse é o trabalho mais importante do mundo, e por isso quando algo dá errado é tão doloroso. sei que sou uma tola em todos os âmbitos. profissionalmente, um tola. daria meu sangue por isso. emocionalmente, uma tola. talvez amar seja o trabalho mais importante do mundo, e por isso tudo dói tanto quando. uma formiga sobe na minha mão, imensa, alada. sou fascinada por formigas aladas. baratas voadoras. esses bichos que podem voar ou não. depende apenas da sua sorte.

nada em mim funciona. um escorpião adentra pela minha boca. desejo que ele encontre um bom lar, talvez alojado nas minhas costelas. aos poucos, seu veneno vai se revelar inofensivo diante do meu. em algum momento, pareceu plenamente possível que as coisas iriam revelar por debaixo de uma camada de poeira que na verdade eram boas e brilhantes. mais uma tolice. a infância nunca me deixou.

de olhos fechados no escuro, ouço as formigas lentamente trabalhando. tudo será desfeito, um fio que puxei sem necessidade, desfiz o nó que nos mantinha em segurança.

o mundo fica silencioso e me diz que eu paguei por isso.

a casa assassinada

minha casa é devorada por formigas gigantes. uma amiga me diz: se existe alguém capaz de transformar o que é feio em bonito, é você. isso, l...