na barriga de saturno
a sombra de um cão
ele me diz que eu idealizo muito o amor e é por isso que-- ruído. ele me diz: eu estou dizendo algum absurdo? você não idealiza o amor?, um dedo apontado bem na pontinha do meu nariz. não é verdade? engulo qualquer resposta, mas não engulo o choro. tento elaborar alguma resposta, alguma defesa. como me defender daquilo que qualquer um poderia apontar como verdade? a pior das acusações: você idealiza o amor. é a pior de todas, sabemos, porque não há maior tolice do que idealizar o amor. coloque seus pés no real, por favor. o parquinho já ficou pra trás tem muito, muito tempo.
eu idealizo o amor.
eu idealizo o amor assim como eu idealizo a educação. eu acredito que eu trabalho com a coisa mais importante do mundo. mais importante do que a saúde, do que a economia. mais importante do que as leis frágeis que seguram nosso frágil mundo, sempre a uma decisão de colapsar. mais importante do que os mistérios do passado e do futuro, mais importante do que uma massagem cardíaca, a demarcação de uma terra indígena, mais importante do que plantar uma árvore, mais importante do que preservar uma espécie. eu trabalho com a coisa mais importante do mundo porque a árvore a espécie o coração a decisão a terra a descoberta a criação o poema porque tudo tudo tudo, eu acredito, vejam, eu sou uma tola, tudo também vai ser construído ali, bem ali, naquela carteira, onde está sentado o renan a flora o joão matheo a isadora a nicole o leonardo, menino chato!, o matheus o dominic o kaio a layla o emanuel caleb o terrível kauan o maravilhoso cauã o gabriel o daniel o rafael o samuel e o nithael, todo um coro de anjos perguntando se tem que copiar o que está no quadro.
eu trabalho com a coisa mais importante do mundo, e eu a amo. eu trabalho com a coisa mais importante do mundo, e todo dia é difícil, mas também é fácil, mas é horrível e também é ótimo e todo dia eu idealizo e sou tola e acredito, acredito e acredito.
eu idealizo o amor como eu idealizo a educação, e essas coisas não serão nunca como elas podem ser, eu nunca vou transformá-las no que elas podem ser, eu não tenho controle do mundo, eu mal tenho controle de mim. eu idealizo a educação porque eu idealizo o amor? professora por amor. que idiotice. digo para meu amigo gabriel: eu sinto que ele matou alguma coisa dentro de mim e isso me dá raiva. me dá raiva ter tido algo dentro de mim morto. mais do alguma coisa morrer, alguma coisa ser morta. quero destruir tudo. quero destruir a mim mesma. por-fogo-em-tudo-inclusive-em. quero quebrar alguma coisa, quero quebrar a escola.
parágrafos imensos. vômito.
faço uma lista de vezes em que fui maltratada. essa é uma lista para ser engraçada e que não dá margem para entender o quão realmente eu fui ferida, e como apesar de todo meu drama, tão conhecido pelos meus amigos, eu sou mesmo uma grande amiga do bom humor, compartilho a lista com minhas amizades. meu amigo joão v. observa uma expressão que usei: tratar feito a sombra de um cão. a sombra de um cão!, ele diz, e me pergunta se usam essa expressão no ceará. não, não, eu escrevi isso na hora. artista!, diz meu amigo, e eu dou risada. meu amigo lucas s. diz: você é sensível e dramática e por isso que eu te amo. meu amigo joão m. diz: você é muito intensa e eu digo isso admirado. falo para a professora que eu amo: vou dar o título da minha tese de a sombra de um cão. como sou boa em prioridades, torna-se o título de uma publicação do meu diário.
passo a tarde inteira com minha amiga marina falando e falando e falando sobre isso. sentindo dor e sentindo raiva. ela me escuta e segura a minha mão. ela providencia o balde, o isqueiro e a água para que eu possa de forma segura queimar as fotos do homem que[]. falo, falo, falo, ela me pergunta, confirmando, se dali eu vou para a análise, sim, e ainda falarei mais? não estou cansada? e estou muito cansada, mas vou para a análise e falo mais, e chego em casa e falo mais com meu amigo gabriel, e ainda falando mais me sento no computador e escrevo tudo isso.
eu sinto raiva. vontade de escrever essa frase várias e várias vezes, escrevê-la até que ela pare de fazer sentido. eu sinto raiva e quero me tornar um monstro. sinto-me ridícula sentindo raiva porque toda a raiva para mim é apenas outra forma de chorar. se eu pudesse dizer ainda, diria: por que você fez isso comigo? e: por que eu deixei você fazer isso comigo? e: por que por que por que por que por que por que me maltratar tanto e por que me dizer essas coisas e por que ser tão calmo na sua raiva e dizer dizer dizer cacos de vidro e depois desculpa é que eu estava muito mal eu estava sofrendo eu sou uma pessoa em sofrimento desculpa ter falado isso é só que eu estou muito triste eu destruí tudo e você nunca vai entender porque porque porque porque
minha amiga bruna lê o que eu ainda tenho de mensagens dele e diz: é difícil dizer isso, mas não tem um traço de amor nessas palavras.
costumávamos brincar que eu era um cão. nosso trio de amigos: um cão, um gato, um hamster. um cão, porque imediatista com suas emoções, e próximo, e carente, e alegre. fico com essa imagem muito tempo. minha sensação é a de ser um cão que subitamente é esbofeteado. por que isso aconteceu? eu só estava alegre ao te ver. essa descrição é digna de pena, de uma indignidade tremenda. sinto vergonha outra vez. sinto vergonha por todas as vezes que fui vulnerável e disse meu bem, aconteceu isso, estou sentindo isso, podemos conversar? e em algum momento (até sabemos qual) tornou-se impossível, impossível.
as coisas fazem pouco ou nenhum sentido. não existe ordenação no mundo. penso, agora: amar é organizar o mundo. estou errada? amar é desorganizar o mundo. amar é: desorganizar a si, organizar o mundo. se amar não fosse uma forma de viver, porque então amar e mudar as coisas me interessa mais? amar e mudar as coisas. algo cômico: por conta do último texto, algumas das pessoas que amo vieram falar comigo sobre a sensação de me ler, sobre eu ser honesta sobre aquilo que sinto, sobre dar pra sentir. encaro tudo que escrevi até agora e penso: será que agora já cansamos? é possível ainda ler essas coisas sem um cansaço enorme?
meu amigo gabriel me diz que o meu olhar para o amor é uma joia. que eu posso lapidar, mas que é algo precioso. ele diz: o amor é seu. o amor é concreto, está nas suas outras relações. isso é seu. meu amigo gabriel (é sempre preciso dizer esse nome, devo mesmo ser cheia de graça, caminho ao lado do anjo anunciador) diz que eu devo tentar separar o que é meu e o que é dele, por fogo também em todo o lixo que ele colocou na minha cabeça.
tento pensar o que eu quero quando escrevo essas coisas. vivo pela exposição? daquilo que é bom e também do que é mau. olho para o conjunto de textos que tenho aqui e sei que escrevi sobre a beleza das coisas, o amor, sempre o amor, a importância de olhar, sobre as pessoas que eu amo tantas, tantas vezes. me sinto cansada de mim mesma porque um quadrinista desenhou uma nuvem na cabeça da minha personagem. me sinto cansada de mim mesma porque estou o tempo todo comigo. me sinto cansada de mim mesma porque sei que vai passar, vai passar, ainda que demore anos, ainda que seja difícil, ainda que seja a ferro e fogo, ainda que seja com machucados e gritos, ainda assim, vai passar.
tenho vontade de me explicar, de dizer que sou engraçada também, que é possível se divertir ao meu lado também, que meu drama encontra uma cadência verbal que toda história vira uma narrativa. a professora que eu amo diz que as pessoas não cansam de me ouvir falando disso ou daquilo porque me amam também, sim, mas também porque eu sei contar. eu não sei se agora estou sabendo contar. eu não sei se agora estou sendo algo além de cansativa. eu gostaria de ser. eu gostaria que mesmo no meio do emaranhado de espinhos, fosse possível agarrar uma pétala que fosse.
dou a volta em mim mesma. desejo isso porque desejo que ainda seja possível ver o amor no meio de tudo isso. porque eu idealizo o amor, e porque ele ter me dito isso me feriu como tantas outras coisas que ele me disse, ou mais, porque essa talvez seja a que realmente importe. queria ter visto o processo de desapaixonamento dele. entender qual foi o momento que essa característica deixou de ser algo bonito para se tornar acusação. digo para a nossa amiga em comum: ele quebrou alguma coisa em mim. mas, e esse é o problema das amantes, e das professoras, e das tolas: tudo tem conserto.
primeiro eu quero falar de
de ontem para hoje, li o bluets da maggie nelson. enviei para a minha orientadora uma foto das três últimas proposições do livro -- i want you to know, if you ever read this, there was a time when i would rather have you by my side than any one of these words, i would rather have you by my side than all the blue in the world, seguida de outras duas, com a marca do fim da escrita, 2003-2006 -- com a seguinte mensagem: terminei a leitura pensando: ninguém no mundo sofre mesmo só. quando eu era apenas uma criança, maggie nelson estava escrevendo palavras que vinte anos depois cairiam no meu coração como se tivessem sido feitas para a minha experiência.
em dois mil e três, eu tinha oito anos e estava na terceira série. você fez quinze anos em julho, deveria estar no primeiro ano do ensino médio. em dois mil e seis, eu cursava a sexta série. você, o primeiro ano da graduação. maggie nelson escrevia bluets. em algum momento desses três anos, ela escreveu: above all, i want to stop missing you. ela escreveu: i loved a bad man. escreveu: to wish to forget how much you loved someone. escreveu: this is how much i miss you talking. this is the deepest blue talking, talking, always talking to you. escreveu: clearly, i am not a private person, and quite possibly i am a fool.
vinte anos depois de escritas essas palavras, eu não sou uma pessoa reservada, e sou uma tola.
apago todas as nossas conversas do celular. meu amigo joão v. diz que se surpreendeu com a queima da biblioteca de alexandria. minha amiga sacha diz: sei o quanto você ama as Palavras. minha amiga gabriella diz: é bom porque você não tem para onde voltar.
no começo do ano passado, escrevi na internet: queria ser a annie ernaux em paixão simples.
eu não sou uma pessoa reservada e compartilho um histórico de pensamento com outras pessoas não reservadas. no livro fogos, marguerite yourcenar escreve: já não tenho nada a temer. atingi o fundo. não posso cair mais baixo que o teu coração. escreveu: nos teus braços não poderia fazer outra coisa senão morrer.
acredito que deva ser melhor ser uma pessoa reservada. melhor? talvez mais chique. rio do meu uso dessa palavra. espero que seja possível sentir algo do meu senso de humor. ser uma pessoa reservada e não ser evidentemente uma tola. ser uma pessoa tola sem que os outros saibam disso. calado vence. eu falo muito, talvez por isso perca tanto.
dois meses e um dia atrás, era o seu aniversário. tenho vontade de escrever algo explícito e gratuito, sexual. geralmente não vou por esse caminho. por que não ir por ele agora? dois meses e um dia atrás era seu aniversário e eu chupava seu pau dentro do carro. uma grande alegria para mim. afinal de contas, agora eu poderia desejar e fazer. o sexo sempre foi importante para mim. guardei um segredo por muito tempo, primeiro de mim mesma, depois dos outros; depois segredo compartilhado com meu ex-namorado, que era virgem antes de mim. o segredo que deixa de ser agora: eu não consigo gozar. talvez revelá-lo assim à luz das palavras ajude. um segredo tão secreto que treze anos na analista não me permitiram compartilhá-lo com ela. talvez por não ser nada demais. talvez por não achar nada tão ruim. talvez por justamente não conseguir gozar gostar tanto de sexo, querer tanto transar, sentir uma coisa que só é possível sentir compartilhando com alguém.
já escrevi sobre gostar de sexo aqui. perto do dia em que escrevi sobre mãos no dia do seu aniversário, dois anos atrás. releio esse texto e novamente me deparo com o fato de a nossa ordenação do tempo ser mera ficção. dois anos atrás, eu já pensava nas suas mãos antes de conhecê-las. escrevi: um estudo sobre mãos enquanto falta de cuidado, e sufocamento, e dor. um estudo sobre o que mãos podem e não podem ser, podem e não podem fazer. estudar as minhas mãos e tudo de bom e de ruim que cabe a elas. estudar as suas mãos e descobrir o bom e o ruim contido nelas. estudar as suas mãos, mas não havia um verdadeiro endereçamento naquela época. ou melhor, havia, e eu ainda não sabia.
não consigo gozar, e ainda assim me sinto condenada a passar o resto da vida sem transar com a pessoa com quem mais gostei de transar. e se pela exposição eu passasse a conseguir? talvez aí me libertasse dessa ideia. na última vez em que transamos -- aquela em que revelei a você que não conseguia gozar --, você colocou uma coleira em mim, um presente. você me disse para esperar de olhos fechados e comentou alegre sobre o balançar das minhas pernas, animadas, antecipando. uma coleira, você segurando a guia. minha analista me pergunta o que estar com um homem mais velho fazia comigo. um homem que parecia saber. então, uma coleira. ele sabe de alguma coisa. basta eu seguir.
o que será que maggie nelson fazia em dois mil e dez? eu estava no segundo ano do ensino médio. você, em algum momento, entrou em um ônibus cheio de outros graduandos das sociais para um congresso e encontrou a pessoa com quem construiria os quinze anos seguintes da sua vida.
annie ernaux em paixão simples escreve: tinha certeza de que eu não era a única a viver essa experiência.
quando escrevi que queria ser annie ernaux em paixão simples, imagino que eu estava pensando que queria viver uma paixão como aquela, algo que me levasse até o limite de mim mesma. também havia algo de divertido e improvável de me imaginar sendo de fato como ela: amante de um homem casado. eu jamais faria isso. por algum valor moral? não, não. eu só não gosto de deixar ninguém triste. acontece, descobri, que é muito fácil não se preocupar com deixar alguém triste quando se está vivendo uma paixão simples.
fui amante por um tempo muito curto, não nasci para o papel. maggie nelson, ao que parece, escreve do outro lado dessa experiência. where you would be spending a week with the other woman you were in love with, the woman you are with now. essa deveria ser eu agora. também não sou. sua esposa escreveu: te desejo tudo de ruim. dentre tantas bobagens que ela me disse, talvez a expressão desse desejo tenha sido a única certeira.
gravo um vídeo de vinte minutos para atualizar os amigos próximos. estamos em setembro. no dia primeiro de setembro de dois mil e vinte e cinco, escrevi na internet que estava apaixonada por um colega de trabalho casado só para sentir alguma coisa. se eu imaginasse como se desenrolaria o ano seguinte, jamais teria escrito isso.
em dois mil e vinte e seis, vinte anos depois de maggie nelson concluir seu bluets, eu amo um homem que perdeu tudo e que não pode me amar porque perdeu tudo. em questão de tempo, é até cômico pensar. quinze anos de relação aprovada pelos olhos de todos, inclusive das leis e de cristo. um mês de uma relação impensável e impossível. e esse um mês pode destruir tudo pelos nove meses seguintes. uma gestação de caos. um homem decidiu que ficaria comigo e voltou atrás. depois, de novo. depois, de novo. depois, de novo. existe um intervalo que fica maior entre cada tolice, mas que nunca nos tira do círculo.
veja, eu não me ausento da minha responsabilidade. eu deveria ter acreditado depois da primeira tentativa que seria impossível. mas eu quis muito. no dia internacional da mulher (acho sempre tão engraçado!), você me procurou eufórico, me abraçou e falou do cheiro do meu cabelo. pouco mais de uma semana antes, eu tinha dito que não queria mais estar nessas idas e vindas da sua indecisão. você disse: eu sei o que eu quero. eu quero você. apesar do luto, da dor, da confusão, eu acreditei. vivemos um terrível mês até mais um fim, porque a sua culpa era muito grande e porque a minha visão do amor era muito idealizada. só porque a gente se ama a gente deveria ficar juntos?
passamos dois meses separados. silêncio. meus textos desse ano acompanham tudo isso. tantas tentativas, tantos fins. você me procurou outra vez e me fez acreditar que passado esse tempo, seria diferente. eu entendo que você também acreditou nisso. três meses depois, fim. eu entendo que você também acreditou que seria diferente, mas como poderia ser se eu ensinei a você que era possível se aproximar de mim e me descartar, uma vez e mais outra, e outra vez ainda e mais uma? que era possível fazer isso repetidamente e me encontrar e se explicar e eu entender?
escrever esse parágrafo me enche de mais vergonha do que confessar que eu fui amante por um mês. me dá mais vergonha do que explicar que eu não consigo gozar. sinto mais vergonha em ter acreditado que poderia ser diferente algo que nunca foi diferente do que de qualquer outra coisa. sinto mais vergonha de ver a posição em que me coloquei do que qualquer coisa. suplicante. queira estar comigo, por favor. vamos fazer isso dar certo, por favor. minhas amizades todas me dizem que não há razão para se envergonhar por acreditar em alguém que se ama. minha orientadora diz: você erra, mas quando você erra, parece um erro para o bem, porque você erra de coração aberto.
hoje eu acordei com a certeza de que essa sensação jamais vai passar.
em setembro do ano passado, tatuei it'll pass. enquanto a agulha perfurava minha pele, eu pensava em você. eu queria mais que tudo que a paixão passasse, ela jamais poderia se concretizar. naquela época, eu tinha certeza de que passaria e de que eu sobreviveria a isso. certeza de que eventualmente a impossibilidade venceria o desejo e eu seguiria sendo sua amiga e me apaixonaria por outra pessoa e viveria outra coisa. contei a você esta história quando estávamos juntos e você riu, eu não precisaria mais do encantamento que tentei fazer com a tatuagem. no fim, é como o texto sobre as mãos. fiz a tatuagem com a lembrança de que teria de esquecer você no futuro.
apaguei todas as nossas conversas para não ter aonde voltar. mas não consigo apagar o que existe na minha cabeça. fecho os olhos e lembro da nossa alegria diante do seu retorno. horas e horas de conversa. você me disse que iria provar para mim que valia a minha confiança. você me disse que ia me mostrar. quando contei essa história aos meus amigos, falei: ninguém promete mais do que o homem que quer voltar. talvez eu deva dizer também que ninguém acredita mais do que a mulher que quer de volta.
queria que transar com você não fosse tão bom. é engraçado quando nosso coração está partido, quando perdemos um amor, quando se perde um mundo sonhado em conjunto. em conversas desse tipo, poucas vezes o sexo aparece. mas aparece em bluets, aparece em paixão simples. lembro de como era estar nas suas mãos, na sua boca e nos seus dentes. sempre um deleite sentir como você apertava minha cintura. existia alguma coisa no seu jeito de me tocar que me fazia me sentir muito consciente de que era eu quem você tocava, o meu corpo, ali, naquele momento. muito longe de qualquer fantasia ou memória. não era sexo pouco atencioso, distraído ou feito por fazer. eu me sentia ali. sentia você ali. fico pensando que nunca mais devo viver isso. minha analista ri de mim, sempre eu e meus nunca mais. nunca mais, nunca mais. o corvo se prende ao meu cabelo e nunca deixa a minha cabeça.
falo para a nossa amiga em comum que alguma coisa morreu dentro de mim. falo para você em uma das nossas últimas discussões que parece obsceno estar triste na sua frente. você é apenas o seu sofrimento e nada mais. você vive a sua dor como causa e consequência de tudo. você se odeia e um homem que se odeia tende a ferir a pessoa mais próxima ao redor. você me diz muitas coisas injustas. você me diz que eu ajo como se fosse fácil só seguir em frente. você me diz que eu queria ver onde isso tudo ia dar. você me diz que te deixa triste eu pensar que você desistiu de mim porque eu não conseguia gozar. você me diz que eu preciso ter cuidado de não tomar minhas narrativas como realidade. no dia seguinte, você me manda mensagem pedindo desculpas e diz: eu não sei se penso mesmo todas essas coisas que falei. eu digo que não importa, está tudo bem, ele não tem mesmo mais que me explicar nada. apago de novo a nossa conversa. não posso ficar voltando.
tudo parece demais e exagerado. converso com nossa amiga e digo a ela que a pior parte de tudo é realmente ter me apaixonado por você. é realmente amar você. é realmente gostar de você. minha amiga bruna me pergunta: por que você, uma pessoa tão abundante, escolheu estar numa história de tanta escassez?
tudo o que eu escrevi nos últimos meses dizem respeito a ele de alguma forma. osman lins: só você me interessa. escrevo esse texto sem disfarces, longo, imenso, expositivo e cansativo. escrevo um texto sem beleza. escrevo isso e me pergunto: por que eu ainda quero você? o que você me oferece? o que eu procuro em amar alguém que me fere? passei mais de um ano para superar o término de dois mil e vinte e três com meu ex. o balanço: dois anos e três meses de alegria contra um mês e meio de sofrimento e dor. e com você? um mês e meio de alegria, contra todo o resto de confusão e tristeza. de que eu sinto falta?
existe, claro, respostas evidentes e psicanalíticas para essa pergunta. ele mesmo me acusou mais de uma vez de ver o amor de maneira idealizada. disse que eu acho que o amor justifica tudo e sobrevive a tudo. não tenho como me defender dessa acusação. até mesmo diante de você que me lê agora, sinto vontade de me explicar, mas sinto que não conseguiria. vejo o amor como uma disposição, um compromisso, uma tentativa de organizar algo. a paixão é um caos. ainda apaixonada, o que eu queria era viver o amor. o que vem depois do caos. não sou uma pessoa reservada e sou uma tola: o amor não como uma força misteriosa que nos faz ficar bem, mas como um motivo consciente para tentar.
acho que não vai melhorar.
tenho medo de daqui a um ano ainda sentir falta.
sonhei que estávamos diante do mar e eu dizia para ele o que riobaldo disse a diadorim: meu bem, estivesse dia claro e eu pudesse espiar a cor dos teus olhos.
talvez meu problema seja verdadeiramente a narrativa. minha organização do mundo. sinto que existe algo de profundamente errado comigo. depois, olho ao meu redor. percebo que ao longo de toda essa cansativa história, as mesmas pessoas me ouviram falar tantas e tantas vezes. em nenhum momento, nenhuma delas demonstrou impaciência ou desinteresse. todas as palavras recebidas, inclusive as mais duras, foram dadas com carinho e preocupação. até mesmo quando eu acreditei que as coisas poderiam ser boas, minhas amigas que não acreditavam na capacidade dele de mudar me disseram: mas você tem que buscar ser feliz, e se for com ele, tudo bem.
então o amor existe.
então o amor não é só a minha idealização, o que eu acho que ele pode fazer a gente suportar, o que eu acho que ele pode fazer a gente atravessar.
então o amor existe, e eu o conheço, e ele existe em mim, e existe também em vocês.
existe em mim porque existe em vocês.
na barriga de saturno
anne carson: perhaps the hardest thing about losing a lover is to watch the year repeat its days . e também: give me a world, you have taken...
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