primeiro eu quero falar de

de ontem para hoje, li o bluets da maggie nelson. enviei para a minha orientadora uma foto das três últimas proposições do livro -- i want you to know, if you ever read this, there was a time when i would rather have you by my side than any one of these words, i would rather have you by my side than all the blue in the world, seguida de outras duas, com a marca do fim da escrita, 2003-2006 -- com a seguinte mensagem: terminei a leitura pensando: ninguém no mundo sofre mesmo só. quando eu era apenas uma criança, maggie nelson estava escrevendo palavras que vinte anos depois cairiam no meu coração como se tivessem sido feitas para a minha experiência.

em dois mil e três, eu tinha oito anos e estava na terceira série. você fez quinze anos em julho, deveria estar no primeiro ano do ensino médio. em dois mil e seis, eu cursava a sexta série. você, o primeiro ano da graduação. maggie nelson escrevia bluets. em algum momento desses três anos, ela escreveu: above all, i want to stop missing you. ela escreveu: i loved a bad man. escreveu: to wish to forget how much you loved someone. escreveu: this is how much i miss you talking. this is the deepest blue talking, talking, always talking to you. escreveu: clearly, i am not a private person, and quite possibly i am a fool.

vinte anos depois de escritas essas palavras, eu não sou uma pessoa reservada, e sou uma tola. 

apago todas as nossas conversas do celular. meu amigo joão v. diz que se surpreendeu com a queima da biblioteca de alexandria. minha amiga sacha diz: sei o quanto você ama as Palavras. minha amiga gabriella diz: é bom porque você não tem para onde voltar. 

no começo do ano passado, escrevi na internet: queria ser a annie ernaux em paixão simples.

eu não sou uma pessoa reservada e compartilho um histórico de pensamento com outras pessoas não reservadas. no livro fogos, marguerite yourcenar escreve: já não tenho nada a temer. atingi o fundo. não posso cair mais baixo que o teu coração. escreveu: nos teus braços não poderia fazer outra coisa senão morrer.

acredito que deva ser melhor ser uma pessoa reservada. melhor? talvez mais chique. rio do meu uso dessa palavra. espero que seja possível sentir algo do meu senso de humor. ser uma pessoa reservada e não ser evidentemente uma tola. ser uma pessoa tola sem que os outros saibam disso. calado vence. eu falo muito, talvez por isso perca tanto.

dois meses e um dia atrás, era o seu aniversário. tenho vontade de escrever algo explícito e gratuito, sexual. geralmente não vou por esse caminho. por que não ir por ele agora? dois meses e um dia atrás era seu aniversário e eu chupava seu pau dentro do carro. uma grande alegria para mim. afinal de contas, agora eu poderia desejar e fazer. o sexo sempre foi importante para mim. guardei um segredo por muito tempo, primeiro de mim mesma, depois dos outros; depois segredo compartilhado com meu ex-namorado, que era virgem antes de mim. o segredo que deixa de ser agora: eu não consigo gozar. talvez revelá-lo assim à luz das palavras ajude. um segredo tão secreto que treze anos na analista não me permitiram compartilhá-lo com ela. talvez por não ser nada demais. talvez por não achar nada tão ruim. talvez por justamente não conseguir gozar gostar tanto de sexo, querer tanto transar, sentir uma coisa que só é possível sentir compartilhando com alguém.

já escrevi sobre gostar de sexo aqui. perto do dia em que escrevi sobre mãos no dia do seu aniversário, dois anos atrás. releio esse texto e novamente me deparo com o fato de a nossa ordenação do tempo ser mera ficção. dois anos atrás, eu já pensava nas suas mãos antes de conhecê-las. escrevi: um estudo sobre mãos enquanto falta de cuidado, e sufocamento, e dor. um estudo sobre o que mãos podem e não podem ser, podem e não podem fazer. estudar as minhas mãos e tudo de bom e de ruim que cabe a elas. estudar as suas mãos e descobrir o bom e o ruim contido nelas. estudar as suas mãos, mas não havia um verdadeiro endereçamento naquela época. ou melhor, havia, e eu ainda não sabia. 

não consigo gozar, e ainda assim me sinto condenada a passar o resto da vida sem transar com a pessoa com quem mais gostei de transar. e se pela exposição eu passasse a conseguir? talvez aí me libertasse dessa ideia. na última vez em que transamos -- aquela em que revelei a você que não conseguia gozar --, você colocou uma coleira em mim, um presente. você me disse para esperar de olhos fechados e comentou alegre sobre o balançar das minhas pernas, animadas, antecipando. uma coleira, você segurando a guia. minha analista me pergunta o que estar com um homem mais velho fazia comigo. um homem que parecia saber. então, uma coleira. ele sabe de alguma coisa. basta eu seguir.

o que será que maggie nelson fazia em dois mil e dez? eu estava no segundo ano do ensino médio. você, em algum momento, entrou em um ônibus cheio de outros graduandos das sociais para um congresso e encontrou a pessoa com quem construiria os quinze anos seguintes da sua vida. 

annie ernaux em paixão simples escreve: tinha certeza de que eu não era a única a viver essa experiência.

quando escrevi que queria ser annie ernaux em paixão simples, imagino que eu estava pensando que queria viver uma paixão como aquela, algo que me levasse até o limite de mim mesma. também havia algo de divertido e improvável de me imaginar sendo de fato como ela: amante de um homem casado. eu jamais faria isso. por algum valor moral? não, não. eu só não gosto de deixar ninguém triste. acontece, descobri, que é muito fácil não se preocupar com deixar alguém triste quando se está vivendo uma paixão simples. 

fui amante por um tempo muito curto, não nasci para o papel. maggie nelson, ao que parece, escreve do outro lado dessa experiência. where you would be spending a week with the other woman you were in love with, the woman you are with now. essa deveria ser eu agora. também não sou. sua esposa escreveu: te desejo tudo de ruim. dentre tantas bobagens que ela me disse, talvez a expressão desse desejo tenha sido a única certeira. 

gravo um vídeo de vinte minutos para atualizar os amigos próximos. estamos em setembro. no dia primeiro de setembro de dois mil e vinte e cinco, escrevi na internet que estava apaixonada por um colega de trabalho casado só para sentir alguma coisa. se eu imaginasse como se desenrolaria o ano seguinte, jamais teria escrito isso. 

em dois mil e vinte e seis, vinte anos depois de maggie nelson concluir seu bluets, eu amo um homem que perdeu tudo e que não pode me amar porque perdeu tudo. em questão de tempo, é até cômico pensar. quinze anos de relação aprovada pelos olhos de todos, inclusive das leis e de cristo. um mês de uma relação impensável e impossível. e esse um mês pode destruir tudo pelos nove meses seguintes. uma gestação de caos. um homem decidiu que ficaria comigo e voltou atrás. depois, de novo. depois, de novo. depois, de novo. existe um intervalo que fica maior entre cada tolice, mas que nunca nos tira do círculo. 

veja, eu não me ausento da minha responsabilidade. eu deveria ter acreditado depois da primeira tentativa que seria impossível. mas eu quis muito. no dia internacional da mulher (acho sempre tão engraçado!), você me procurou eufórico, me abraçou e falou do cheiro do meu cabelo. pouco mais de uma semana antes, eu tinha dito que não queria mais estar nessas idas e vindas da sua indecisão. você disse: eu sei o que eu quero. eu quero você. apesar do luto, da dor, da confusão, eu acreditei. vivemos um terrível mês até mais um fim, porque a sua culpa era muito grande e porque a minha visão do amor era muito idealizada. só porque a gente se ama a gente deveria ficar juntos? 

passamos dois meses separados. silêncio. meus textos desse ano acompanham tudo isso. tantas tentativas, tantos fins. você me procurou outra vez e me fez acreditar que passado esse tempo, seria diferente. eu entendo que você também acreditou nisso. três meses depois, fim. eu entendo que você também acreditou que seria diferente, mas como poderia ser se eu ensinei a você que era possível se aproximar de mim e me descartar, uma vez e mais outra, e outra vez ainda e mais uma? que era possível fazer isso repetidamente e me encontrar e se explicar e eu entender?

escrever esse parágrafo me enche de mais vergonha do que confessar que eu fui amante por um mês. me dá mais vergonha do que explicar que eu não consigo gozar. sinto mais vergonha em ter acreditado que poderia ser diferente algo que nunca foi diferente do que de qualquer outra coisa. sinto mais vergonha de ver a posição em que me coloquei do que qualquer coisa. suplicante. queira estar comigo, por favor. vamos fazer isso dar certo, por favor. minhas amizades todas me dizem que não há razão para se envergonhar por acreditar em alguém que se ama. minha orientadora diz: você erra, mas quando você erra, parece um erro para o bem, porque você erra de coração aberto.

hoje eu acordei com a certeza de que essa sensação jamais vai passar. 

em setembro do ano passado, tatuei it'll pass. enquanto a agulha perfurava minha pele, eu pensava em você. eu queria mais que tudo que a paixão passasse, ela jamais poderia se concretizar. naquela época, eu tinha certeza de que passaria e de que eu sobreviveria a isso. certeza de que eventualmente a impossibilidade venceria o desejo e eu seguiria sendo sua amiga e me apaixonaria por outra pessoa e viveria outra coisa. contei a você esta história quando estávamos juntos e você riu, eu não precisaria mais do encantamento que tentei fazer com a tatuagem. no fim, é como o texto sobre as mãos. fiz a tatuagem com a lembrança de que teria de esquecer você no futuro.

apaguei todas as nossas conversas para não ter aonde voltar. mas não consigo apagar o que existe na minha cabeça. fecho os olhos e lembro da nossa alegria diante do seu retorno. horas e horas de conversa. você me disse que iria provar para mim que valia a minha confiança. você me disse que ia me mostrar. quando contei essa história aos meus amigos, falei: ninguém promete mais do que o homem que quer voltar. talvez eu deva dizer também que ninguém acredita mais do que a mulher que quer de volta. 

queria que transar com você não fosse tão bom. é engraçado quando nosso coração está partido, quando perdemos um amor, quando se perde um mundo sonhado em conjunto. em conversas desse tipo, poucas vezes o sexo aparece. mas aparece em bluets, aparece em paixão simples. lembro de como era estar nas suas mãos, na sua boca e nos seus dentes. sempre um deleite sentir como você apertava minha cintura. existia alguma coisa no seu jeito de me tocar que me fazia me sentir muito consciente de que era eu quem você tocava, o meu corpo, ali, naquele momento. muito longe de qualquer fantasia ou memória. não era sexo pouco atencioso, distraído ou feito por fazer. eu me sentia ali. sentia você ali. fico pensando que nunca mais devo viver isso. minha analista ri de mim, sempre eu e meus nunca mais. nunca mais, nunca mais. o corvo se prende ao meu cabelo e nunca deixa a minha cabeça.

falo para a nossa amiga em comum que alguma coisa morreu dentro de mim. falo para você em uma das nossas últimas discussões que parece obsceno estar triste na sua frente. você é apenas o seu sofrimento e nada mais. você vive a sua dor como causa e consequência de tudo. você se odeia e um homem que se odeia tende a ferir a pessoa mais próxima ao redor. você me diz muitas coisas injustas. você me diz que eu ajo como se fosse fácil só seguir em frente. você me diz que eu queria ver onde isso tudo ia dar. você me diz que te deixa triste eu pensar que você desistiu de mim porque eu não conseguia gozar. você me diz que eu preciso ter cuidado de não tomar minhas narrativas como realidade. no dia seguinte, você me manda mensagem pedindo desculpas e diz: eu não sei se penso mesmo todas essas coisas que falei. eu digo que não importa, está tudo bem, ele não tem mesmo mais que me explicar nada. apago de novo a nossa conversa. não posso ficar voltando.

tudo parece demais e exagerado. converso com nossa amiga e digo a ela que a pior parte de tudo é realmente ter me apaixonado por você. é realmente amar você. é realmente gostar de você. minha amiga bruna me pergunta: por que você, uma pessoa tão abundante, escolheu estar numa história de tanta escassez? 

tudo o que eu escrevi nos últimos meses dizem respeito a ele de alguma forma. osman lins: só você me interessa. escrevo esse texto sem disfarces, longo, imenso, expositivo e cansativo. escrevo um texto sem beleza. escrevo isso e me pergunto: por que eu ainda quero você? o que você me oferece? o que eu procuro em amar alguém que me fere? passei mais de um ano para superar o término de dois mil e vinte e três com meu ex. o balanço: dois anos e três meses de alegria contra um mês e meio de sofrimento e dor. e com você? um mês e meio de alegria, contra todo o resto de confusão e tristeza. de que eu sinto falta?

existe, claro, respostas evidentes e psicanalíticas para essa pergunta. ele mesmo me acusou mais de uma vez de ver o amor de maneira idealizada. disse que eu acho que o amor justifica tudo e sobrevive a tudo. não tenho como me defender dessa acusação. até mesmo diante de você que me lê agora, sinto vontade de me explicar, mas sinto que não conseguiria. vejo o amor como uma disposição, um compromisso, uma tentativa de organizar algo. a paixão é um caos. ainda apaixonada, o que eu queria era viver o amor. o que vem depois do caos. não sou uma pessoa reservada e sou uma tola: o amor não como uma força misteriosa que nos faz ficar bem, mas como um motivo consciente para tentar. 

acho que não vai melhorar.

tenho medo de daqui a um ano ainda sentir falta. 

sonhei que estávamos diante do mar e eu dizia para ele o que riobaldo disse a diadorim: meu bem, estivesse dia claro e eu pudesse espiar a cor dos teus olhos.

talvez meu problema seja verdadeiramente a narrativa. minha organização do mundo. sinto que existe algo de profundamente errado comigo. depois, olho ao meu redor. percebo que ao longo de toda essa cansativa história, as mesmas pessoas me ouviram falar tantas e tantas vezes. em nenhum momento, nenhuma delas demonstrou impaciência ou desinteresse. todas as palavras recebidas, inclusive as mais duras, foram dadas com carinho e preocupação. até mesmo quando eu acreditei que as coisas poderiam ser boas, minhas amigas que não acreditavam na capacidade dele de mudar me disseram: mas você tem que buscar ser feliz, e se for com ele, tudo bem. 

então o amor existe.

então o amor não é só a minha idealização, o que eu acho que ele pode fazer a gente suportar, o que eu acho que ele pode fazer a gente atravessar.

então o amor existe, e eu o conheço, e ele existe em mim, e existe também em vocês. 

existe em mim porque existe em vocês.

primeiro eu quero falar de

de ontem para hoje, li o bluets da maggie nelson. enviei para a minha orientadora uma foto das três últimas proposições do livro -- i want y...