anne carson: perhaps the hardest thing about losing a lover is to watch the year repeat its days.
e também: give me a world, you have taken the world i was.
uma parte de mim torce para que esse seja o último texto que estou escrevendo sobre ele. como tirar veneno do coração. um exorcismo, um expurgo. minha vontade é que esse seja o último texto porque depois disso, não precisarei de mais nada, não precisarei continuar tentando. o texto da minha desistência, pode ser assim? não sei se consigo sustentar esse compromisso. ontem tive febre e não dormi durante a madrugada. minha amiga da escola me diz que a dor de garganta é a doença de quem está guardando um monte de desaforos sem dizer. antes fossem só desaforos.
nos últimos dias, senti uma imensa raiva. como escrevi da última vez, a raiva me parece às vezes só outra forma de chorar. se eu sentar ao lado da minha raiva e ouvi-la grunhir e gritar, eventualmente olharei para ela e verei as lágrimas rolando. minha raiva vai se revelar apenas mais uma face da tristeza. eu estou muito triste. eu queria estar menos triste. ontem, catorze de setembro, acordei e pensei: ah, hoje faz um mês da conversa que fez tudo mudar. isso, claro, é um exagero. não é apenas uma conversa que faz tudo mudar, mas é também. se ele me explica que já estava mal, enlutado, deprimido antes, eu acredito. mas eu também acredito no que eu vejo e no que vi, e que foi a partir do dia catorze de agosto que tudo o que tornava possível ainda tentar, ainda acreditar, parece ter se desfeito.
isso também deve ser um exagero. se existe algo sobre mim é que eu detesto ser injusta. mas talvez seja nessa tentativa de não ser injusta que eu me perca. não quero ser injusta, então eu quero entender e ponderar. não quero ser injusta, e talvez acabe sendo, de toda forma. passo a mão na minha cabeça e inúmeros fios caem. meses vivendo um amor que faz seu cabelo cair. não é romântico?
meus amigos, um coro grego, me dizem: qualquer pessoa que não esteja apaixonada consegue ver. meu trabalho agora nem é tanto conseguir ver. eu consigo ver. talvez eu não consiga aceitar.
acontece de eu ficar perdida em pensamentos com frequência. acontece de com frequência eu lembrar das coisas boas. acontece de com frequência, ao lembrar de coisas boas, eu ter que puxar meu cérebro pela orelha e falar: sim, isso foi bom, mas veja isso aqui. lembre dessa sensação aqui. várias vezes eu acho que vou ficar bem. várias vezes eu acho que nunca vou me recuperar. provavelmente tudo é um exagero, eu sou dramática e sensível.
queria que esse foi o último texto sobre esse assunto e que nele eu conseguisse colocar tudo para fora, inclusive os pensamentos mais humilhantes. o pensamento mais humilhante de todos é: eu queria que ele tivesse gostado de mim. não existe enunciado mais degradante do que esse. em todas as nossas separações, eu tinha a nítida sensação de que estávamos apaixonados, que o que nos separava era do foro de outros sentimentos: culpa, vergonha, deve, remorso. no final das contas, estar apaixonado não deve valer mesmo nada, nem quer dizer nada. eu dizia a ele com frequência que queria sair da paixão para o amor. sinto que realizei essa transição, mas também posso estar enganada. sinto também que ele nunca me amou e nisso não devo estar enganada, embora ele certamente discordasse caso lesse essas palavras.
bell hooks: o amor é o que o amor faz.
eu não tenho mais como voltar nas nossas conversas, todas apagadas. ao mesmo tempo, tantas coisas eu lembro. difícil ter uma memória assim. lembro de boas sensações. lembro da alegria de acreditar. também tenho vergonha disso, como já disse. escrevo de maneira tão aberta porque só sei viver assim. algumas pessoas vieram conversar comigo sobre os últimos textos daqui e todas citaram de alguma maneira a minha honestidade. é engraçado isso, visto que é uma narrativa que envolve traição. também que a raiva que ele sentiu de mim tem a ver com eu ter mentido sobre ter gozado. depois, quando juntei coragem para dizer, ele disse que eu praticamente tinha sido obrigada a dizer. que eu só tinha falado porque não havia escapatória. mas havia, sim. depois pensei em outras tantas formas que poderia ter continuado mentindo, mas não queria. ele disse: quando você se mostra capaz de mentir e sustentar uma mentira, deixa a outra pessoa se perguntando o que era verdade. ele, um homem que traiu a esposa e que por um breve momento disse a si mesmo que queria voltar com ela. sempre penso na dureza das palavras dele para mim depois da minha revelação. disse que era difícil acreditar que eu não tivesse agido de maneira calculada. queria poder dizer a ele que não houve cálculo nenhum porque se houvesse, eu teria que imaginar que seria tão humilhada por ele, o que não estava no meu horizonte de expectativas.
continuo febril.
tenho vontade de escrever todas as sensações boas. tudo que foi bom. foram meses de coisas horríveis e um punhado de coisas boas que eu seguro como preciosidades. como se nelas habitasse a verdade, quando sei que a verdade se revela é no meio, é na travessia. ano passado, essa hora, talvez eu estivesse pensando nele. os jogos interclasses iam começar em breve e minha paixão lúdica pelo meu melhor amigo da escola logo deixaria de ser lúdica. lembro de como me alegrava vê-lo chegar na sala dos professores, lembro da satisfação de quando ele se sentava perto de mim para conversar. com a passagem dos meses, todos esses sentimentos foram ficando mais e mais afiados, e eu falando com minhas amizades e dizendo que queria só que chegasse logo a minha viagem no final do ano, tudo ia passar, eu ia voltar e estaria normal, nós poderíamos seguir amigos. será que isso seria possível? ele me perguntou, enraivecido: qual era a porra do problema de continuarmos sendo amigos?, amargurado pelas próprias escolhas. eu não sei, eu não sei. só não parecia possível. naquela época, tudo o que eu queria era vê-lo existindo. conversar com ele alimentava meu coração por dias. eu estava enlouquecida de paixão, sim, desejando que passasse porque era impossível, mas havia algo de feliz naquilo tudo. a alegria de estar apaixonada por uma pessoa que eu gostava tanto. destaco esse verbo porque parece uma obviedade, mas não é. às vezes, a paixão é um horror por não nos desvincular de imediato de alguém que não se gosta. eu gostava dele. gostava da voz na hora das coordenações pedagógicas, da firmeza, da justeza na hora de tratar dos alunos. gostava compartilhar minhas experiências de novata na sala de aula e ouvir o que ele tinha a dizer dos seus quinze anos de professor. gostava que ele parecia atento. gostava de descobrir a escola com ele. hipótese: me apaixonei assim por ele porque ele era também a escola, e eu sou uma apaixonada pela escola.
depois, continuei gostando e descobrindo tantas outras coisas para gostar. gostava de a gente gostar das mesmas músicas e de músicas diferentes, e que das diferentes eu também gostasse. gostava de ouvi-lo falar sobre o corinthians. gostava de a gente gostar de filmes de terror. prometemos ver tantos filmes de terror juntos. foi engraçado, nos dois meses e meio que tivemos de alegria. ou melhor, que eu tive de alegria: gostava de poder mandar mensagem para ele a qualquer momento. depois, descobri que isso era um incômodo, um esforço. é engraçado isso. disse a ele: parecia que você gostava. ele me respondeu impaciente que não estava me enganando, pelo amor de deus. é engraçado se deparar com a impaciência de quem você ama e por quem você acha que é amada. foram dias e dias me sentindo culpada, talvez ainda agora me sentindo culpada, me perguntando o que eu fiz para que ele não gostasse mais de mim. lembro da minha alegria sempre que nos encontrávamos, eu me jogando no abraço dele, cheirando seu rosto, seu pescoço, beijos por todos os lados. no final, eu sentia uma trava em mim. no último dia, ele me perguntou: você não quis me abraçar? e eu, que sempre queria abraçá-lo, me sentindo sufocada, querendo dizer: é que eu não sei se você ainda quer me abraçar. falei para ele em alguma das discussões do fim que sentia que ele não gostava mais de mim. ele disse: eu nunca disse isso. é claro que nunca disse. isso não é coisa de dizer.
minha melhor amiga da escola diz que ele é uma pessoa que tem uma visão do amor muito diferente da nossa. que eu tenho um outro entendimento do amor. toda vez que senti vontade de falar com ele nos últimos dias, o que me fez desistir foi pensar: essa pessoa não gosta de mim. o que é gostar de alguém? o amor é o que o amor faz. quando ele tenta me explicar que não foi por conta do orgasmo, que ele já estava mal, que as coisas já estavam ruins, vou por dois caminhos. o primeiro é acreditar que de fato, não é possível que fosse por isso, mas que é inevitável não ver como o comportamento dele comigo mudou a partir desse dia, ainda que ele sempre estivesse de luto. o segundo é pensar que tudo isso já estava mesmo acontecendo bem antes, e que eu fui imensamente tola porque só me apaixonava mais e mais, enquanto ele já ia alimentando dentro de si a dúvida, apesar de ter me procurado dizendo que tinha certeza, ele se desencantava, se desapaixonava, e pensar nisso também me dói, porque sigo pensando: então o que eu poderia ter feito de diferente para ainda ter o seu amor?
quando escrevo essas coisas, imagino alguém lendo sentindo vergonha alheia. é difícil olhar para uma pessoa que almeja e que deseja algo que faz mal. queria que tudo fosse mais simples de entender e de lidar. que eu conseguisse só empilhar todos os desrespeitos e displicências e não justificá-las. juntar tudo o que houve de ruim e deixar tudo para trás. conversando com a amiga da escola, choramingo: eu só queria não ter gostado? gostar? tanto dele. ela me pergunta se eu ainda gosto, se ainda é possível gostar de alguém depois de tamanha decepção. revelo a ela que uma das maiores dores é não gostar mais ou não poder gostar mais ou ter que deixar de gostar. uma das maiores dores é ele ter agido de uma maneira que me feriu tão profundamente que não existe reparação possível. lembro do domingo de maio em que nos reencontramos depois de dois meses afastados. de como eu estava incerta, de como eu queria acreditar, de como foi bom me permitir acreditar nele outra vez. de como eu me senti alegre. de como foi abraçá-lo e rir e estar no sorriso dele. uma alegria doce que parecia subverter o eros, o que era amargo estava antes. que boba eu. o que dói agora é que não existe mais possibilidade disso. e eu sei que isso deveria ser bom. é isso que é estar com a cabeça no lugar. é escolher a coisa difícil e que machuca, mas que é certa. eu sei disso. no entanto, existia uma beleza em amá-lo que é ruim de largar. mas vou largar, ou já larguei. estou apenas olhando as marcas que ficaram nas minhas mãos.
pergunto para minhas amigas: mas não é possível que uma pessoa mude?, porque sinto desespero, porque gostaria que as coisas fossem diferentes. é possível que uma pessoa mude, só não que ela mude por você. outra das coisas que eu já sei, mas preciso continuar aprendendo. de novo, a única coisa que eu posso mudar sou eu mesma, e isso é libertador e desesperador ao mesmo tempo.
confissões de dar dó: queria que ele gostasse de mim. queria que ele tivesse gostado de gostar de mim. queria que ele soubesse que todos os dias eu acordava feliz e animada porque seria mais um dia com ele. que me alegrava poder falar com ele. que me alegrava sonhar com ele. me alegrava acreditar nele. qualquer pessoa lendo isso poderá dizer: você está falando isso de um homem que destruiu outra mulher antes de ir atrás de destruir você. é verdade. toda vez que penso que sou menos porque ele não teve comprometimento comigo, lembro que ele também não teve com ela. mas tanto eu quanto ela, duas idiotas, estávamos prontas para perdoá-lo. nem falo tanto da traição, embora ela seja certamente motivo de destruição. foi o momento depois. minha analista diz que não o conhece, mas que pelo que eu conto parece que ele tem muita dificuldade de ver o sofrimento das outras pessoas. depois de confessa a traição, foram meses e meses de dúvidas sendo arrastadas para mim e para ela. isso tudo porque ele amava as duas? o amor é o que o amor faz.
escrever esse texto me deixa triste porque a cada palavra sai de mim a verdade de que não é possível mais amá-lo. que acreditar que ainda seria possível, desejar um retorno, imaginar como seria se, é tentar eu mesma me amarrar em uma mentira. a verdade é que agora as coisas foram quebradas e mortas. é uma tolice minha, ter querido tanto amá-lo, ter acreditado tanto que poderia amá-lo. para algumas das minhas amigas, quando contei o que aconteceu, não houve choque algum. meu coro grego sentou-se ao meu lado e disse: queríamos ter errado. o choque foi todo meu.
escrever esse texto também me deixa triste porque eu gostaria que fosse o último. ou que fosse o último que viesse a público assim. que os próximos morram nas páginas do meu diário ou sejam elaborados em conversas com minhas amizades. aliás, nem queria isso também. queria poder silenciar sobre esse homem e esse amor e tudo o que foi e tudo o que não foi. queria que fosse possível fechar tudo isso dentro de mim e não querer mais olhar. agora que sei que estou acabando, me vem um desespero de querer continuar falando, eu sempre quero continuar. quero continuar escrevendo sobre as coisas boas e vê-las se tornarem coisas ruins sem eu nem pensar. quero continuar dizendo que não desejo ser injusta nem pintá-lo como monstro, eu sei que ele é apenas um homem ferido que faz o que todo homem ferido faz, machuca quem está ao redor. eu sei que o que eu considero ser o amor, e minha idealização do amor, está distante daquilo que ele considera o amor. de alguma maneira, nos textos ele se mantém vivo para mim, alguém que eu ainda posso narrar, imaginar, pensar sobre. foi tão fácil para ele desistir de mim. foi, e é, tão difícil para mim desistir dele. talvez isso seja o outro lado de uma moeda que me diz que é fácil até para mim desistir de mim. que não querer desistir dele é querer desistir de mim.
no dia em que terminamos de vez, descobri que ele vinha me tratando mal nas últimas semanas entre outras razões porque a ex-esposa tinha ficado doente e sido internada por três dias. naquele momento, me veio um raio iluminando a mente e eu só conseguia repetir para mim mesma que tinha que terminar, que tinha que sair daquela situação. porque não era certo ou justo que eu passasse semanas acreditando não ser amada por conta de algo que não dizia respeito a nós dois. na noite em que falamos sobre eu não gozar, também: não conseguia parar de vomitar porque alguma coisa em mim dizia que aquilo tudo estava sendo muito violento, que ele não devia me tratar assim por um segredo e uma mentira que diziam respeito a algo profundamente meu, que ele não podia dizer que eu o estava fazendo de otário. nas semanas seguintes, brigamos quase todos os dias, e quase todos os dias eu pensava comigo mesma: eu tenho que terminar, isso não é certo. não é certo que ele me trate assim, não é certo sentir isso, não é certo amar alguém e ter medo de falar com essa pessoa porque ela vai se irritar com você. não é certo se sentir culpada depois de toda conversa com uma pessoa que dizia amar você porque você exigiu demais dela, porque você queria conversar, porque você queria carinho, porque isso ou aquilo. anoto essas coisas porque elas são tão verdade quanto a alegria que eu sentia ao vê-lo gargalhar de algo que eu tinha dito, de gargalhar de algo que ele me disse. são tão verdade quanto meu imenso tesão só de ouvir a voz dele dando aula. são tão verdade quanto a sensação de estar vivendo o que eu tinha que viver quando eu me aninhava no colo dele e ele acariciava meu cabelo. essa insegurança, esse medo, o receio de estender a mão para tocá-lo são reais. a sensação de que eu estava me maltratando ao me deixar ser maltratada e entender que era maltratada porque ele estava tão triste é real.
a imensa alegria que eu sentia de gostar dele era verdadeira. tanto quanto essa imensa tristeza de agora.
tenho medo de apertar o publicar e descobrir que ainda tem tanta coisa que eu gostaria de dizer. mas, como todas as coisas que eu imaginei que poderíamos viver juntos, essas também vão sumir.
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