final de outubro

no dia vinte e quatro de outubro, meus amigos júlia e joão se casaram. no dia vinte e cinco de outubro, operamos um milagre ou um truque de mágica ou um fissura de esperança na aridez do real. no dia vinte e cinco de outubro, também, completei dois anos sendo professora. quando eu era criança, e até depois, dizia que outubro era meu mês preferido. "é o do seu aniversário?," costumavam perguntar. não, não, meu aniversário é só em novembro. outubro tem uma sonoridade que eu gosto. 

no dia do casamento dos meus amigos joão e júlia, achei que eu não estava no meu melhor estado. isso é, eles confiaram em mim para celebrar a união dos dois, eu seria a oficiante, eu deveria ter tudo pronto, precisava ser perfeito. fico feliz que júlia e joão não acompanham a minha cabeça, fico feliz quando lembro de júlia chorando enquanto eu dizia algo que não consigo recordar. era qualquer coisa sobre o amor. escrevi assim no caderno em que anotei as etapas do casamento: falar de amor. 

coisas mágicas e milagrosas aconteceram na última semana de outubro. coisas mágicas e milagrosas aconteceram no último final de semana. eu espero não ser lida por nenhum racionalista, realista, que vai tentar explicar a magia que operamos pela materialidade da coisa. sim, sabemos que houve o material. mas não podemos dispensar também o que houve de mágico. não podemos? eu não posso. eu não posso dispensar o que houve de mágico. 

era o que eu queria, o que eu devia ter dito, a joão e júlia. eu devia ter dito: isso aqui é mágico. estar ali, com eles, com as pessoas que eles chamaram para celebrar o amor, num casamento que era todinho deles, um dia antes de um dos domingos mais tensos das nossas vidas que terminou em festa e grito de alívio, era mágico. júlia e joão se casaram de manhã. no dia anterior, meu celta milagrosamente retornado da oficina depois de quase um mês serviu para levar uma das mesas para o local da festa. lá, eu e joão pela primeira vez colocamos musgos em florais. júlia tinha feito todos os arranjos de flores. ela cortou um pedaço de floral e disse: isso aqui é um pouco tóxico. joão e eu lutamos para deixar nossos musgos no lugar. ele disse: como assim eu não sou bom em algo que nunca fiz antes? joão trouxe mcdonalds para júlia almoçar às cinco horas da tarde e um porção de nuggets para mim. sentamos numa das mesas que seriam usadas pelos convidados no dia seguinte e eu disse: preciso contar coisas para vocês. contei coisas para eles, que comemoraram, confabularam, comentaram. joão e júlia iam se casar na manhã seguinte e estávamos ali, fofocando sobre algo que me aconteceu, como se o dia seguinte não tivesse potencial de ser o último dia feliz do nosso ano. depois (ou antes?) júlia (ou joão) me mostrou onde ficaria a máquina de dança (eu sou tão por fora, esqueci o nome!). júlia me mostrou o jogo da velha que fez com a ajuda de sua mãe. em vez de x e o, os rostinhos de choco e zathura. 

disse no dia do casamento que era uma estudiosa do amor. talvez eu apenas queira ser uma estudiosa do amor. fosse eu uma estudiosa do amor, aprenderia a diferenciar muito rapidamente, para mim mesma, o que é amor e o que é um arremedo de amor, uma farsa mal feita. na despedida de solteira de júlia, vimos em vídeo joão responder nada que minha noiva faz me irrita quando perguntado sobre o que o deixava mais irritado sobre ela. para muitas pessoas, essa resposta parece impossível, ensaiada. elas dizem: o amor é exaustivo, é trabalhoso. o amor é uma luta diária. vejo júlia e joão e o amor é sim, diário. mas não uma luta. uma construção. uma dança. o amor é trabalhoso como é ensaiar uma dança juntos. o amor é exaustivo? joão fala em seus votos sobre só terem às vezes uma hora e meia de conversa, cedinho de manhã, antes de ser tragado para uma jornada de trabalho insana. não, o amor não é exaustivo. penso em minhas amigas gabriella e anne. penso em bruna e breu. em fox e teddy. em cordeiro e koba. em vanessa e césar. tayná e ingredh. karol e sofia. penso em joão e júlia. o amor pode ser trabalhoso como montar uma cadeira. plantar uma árvore. consertar uma lâmpada. esse tipo de trabalho. às vezes, algumas vezes, sim, lágrimas e conversas difíceis, mas nunca o desrespeito, as palavras para ferir. o amor não é não brigar. o amor é não destruir.

queria muito ter escrito algo, ter estado pronta antes do casamento. ter as palavras certas no ritmo certo. demos muita risada, acho que isso é importante. júlia me manda mensagem dizendo para eu casá-la de novo, fazer a renovação dos votos. joão me diz que muitas pessoas vieram falar com ele que a promessa da troca de alianças foi muito bonita. fico aliviada. sim, eu quero que seja bonito, eu quero fazer coisas bonitas para as pessoas que eu amo. eu dou tanto trabalho aos meus amigos. sinto que sou a pessoa que mais dá trabalho no mundo. e também sou a pessoa com mais sorte do mundo. configurações astrológicas me permitiram ser cercada de pessoas que não se importam com o trabalho que eu dou. penso agora: nenhuma das pessoas que eu sinto verdadeiramente o amor jamais me disse que se arrependeu da nossa relação. percebo mais uma vez, para somente a minha surpresa, que minhas mãos estão cheias de amor. 

nessas mãos, diante de júlia e joão, seguro suas alianças. penso: que honra. penso: meu deus! penso: eu estou aqui com eles nesse momento, bem pertinho. como é possível? enquanto júlia lia seus votos, eu lacrimejei. sua voz emocionada e hesitante, a leitura lenta para evitar o choro, tudo era bonito. em tempos antes de tomar os remédios, acredito que teria chorado muitamente. minha amiga anne me disse que conversando com companheira gabriella, algum tempo atrás, comentou com ela que eu havia perdido algum brilho no olhar. acho que sim. e ao mesmo tempo, joão e júlia recortaram estrelinhas e colaram nos meus olhos. o que será que eu disse a eles? já não lembro de quase nada. lembro de começar dizendo que eu estava nervosa e feliz que eles estavam ali comigo. que estávamos todos vivendo aquilo pela primeira vez. bruninha sempre diz, e eu sempre repito, que somos crianças sempre diante do tempo do mundo. 

falei para algumas pessoas que lula ganhar as eleições é um acontecimento de reconfiguração de alma. não quero elaborar esse pensamento. ele é isso. o que foi feito nessas duas semanas e o que conseguimos deve renovar tudo dentro da gente. 

antes disso, júlia e joão se casaram com sorrisos até o céu. 

existe algo engraçado sobre ser uma entusiasta do amor. uma romântica. uma tola. as pessoas costumeiramente dizem para não se importar tanto com isso, as pessoas dizem: cultive sua vida. eu cultivo minha vida. se existe algo que ser tola e romântica não me impede é de viver. às vezes, tomando péssimas decisões. mas vivendo. olho para joão e júlia e sei que a questão é mais do que isso. é entender que é possível compartilhar e cultivar pedaços da sua vida com alguém. com alguém bem de pertinho. eu sou uma pessoa com muito amor. e eles também. no casamento, vemos: estão cercados de amor, amor por todos os lados. veja, tento ser uma estudiosa do amor. atesto que o amor existe em inúmeras e diferentes variações e qualidades. faz já dois anos que eu sou professora e existe um amor feroz por essa profissão, unhas e dentes para defender aquilo que eu acredito. digo isso para dizer: o amor desse, de casamento, que vem da paixão e aí do companheirismo e da crença de que você encontro ali algo raro, algo que é seu para cuidar, é apenas mais uma forma do amor no mundo. e eu, que sou romântica, assim como júlia, que é romântica, quero todas elas. 

o casamento já foi muitas coisas. enquanto instituição, continua sendo aquilo mesmo que lemos nos livros do realismo, na literatura russa, nas análises sociológicas. mas a gente também pode brincar e fazer um pouco de mágica, mesmo com a mais dura das instituições. júlia e joão fizeram um fliperama. eles mesmos montaram e desmontaram as flores. as músicas, uma playlist compartilhada com os convidados. colocaram uma câmera em nossas mãos para que a gente gravasse vídeos do casamento, mostrando o que nós víamos. joão e júlia tiveram como oficiante uma amiga, escritora de blogs, aceitaram as palavras de uma pessoa muito boba e muito deslumbrada. que talvez seja o que é preciso também para se casar. até mesmo para engajar numa causa: para acreditar, de fato, no amor como fonte de transformação, no amor que se transforma em desejo de lutar, até mesmo o ódio que nutrimos por aqueles que querem nos ferir e ferir os nossos parte do amor. o amor, um cuidado, não disse? júlia e joão caminharam tantos passos um sem o outro, até andarem juntos. such an old-fashioned word. o desafio do amor. aquela centelha, fagulha na alma, que chamam esperança. 

final de outubro

no dia vinte e quatro de outubro, meus amigos júlia e joão se casaram. no dia vinte e cinco de outubro, operamos um milagre ou um truque de ...